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O pastor e teólogo Samuel Silva analisou as diferenças no tom dos discursos de Michelle e Jair Bolsonaro.

Entenda o impacto da retórica da ex-primeira-dama na base eleitoral.

Papo Antagonista é o programa que explica e debate os principais acontecimentos do dia com análises críticas e aprofundadas sobre a política brasileira e seus bastidores.

O programa traz contexto e opinião sobre os temas mais quentes da atualidade. Com foco em jornalismo, eleições e debate, é um espaço essencial para quem busca informação de qualidade.

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Transcrição
00:00Uma pesquisa do Datafolha mostrou que a influência de líderes religiosos na escolha do voto para presidente em 2026
00:08é menor do que costuma se supor.
00:11Entre os eleitores evangélicos, apenas 28% afirmam que a opinião dos pastores terá muita ou alguma influência em sua
00:20decisão nas urnas.
00:22Esse dado reacende o debate sobre a diversidade e a autonomia desse eleitorado.
00:28Para analisar esses números e entender a complexidade desse segmento, conversamos hoje com o pastor e teólogo Samuel Silva.
00:37Ele é mestre em Fé e Política pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo, especialista em liderança missional pela St.
00:46John University na Inglaterra
00:48e autor do livro Evangelicos, Ignorantes, Pretos, Pobres, Pardos ou Protagonistas.
00:56Pastor Samuel, seja muito bem-vindo aqui ao Papo Antagonista.
01:01Duda, prazer imenso estar aqui com você.
01:03Muito obrigado por esse convite e abrir esse espaço para falarmos de uma temática de extrema importância
01:09para nós e para todo cidadão brasileiro. Prazer imenso.
01:13Samuel, começo aqui com a primeira pergunta, depois passo para os meus colegas.
01:17Mas por que essa ideia que a Datafolha mostrou que a influência dos pastores não é tão grande como se
01:25imagina?
01:28Duda, olha só. Quando a gente lê os dados, mesmo em 2018, quando houve toda uma mobilização no país
01:37entre as igrejas históricas que são presiderianos, luteranos, batistas e etc., pentecostais, neopentecostais,
01:46católicos, conservadores e carismáticos, cerca de 27% ainda da população evangélica
01:52voltou na oposição, voltou no presidente Lula.
01:59Então, assim, não existe nenhuma manipulação, não é?
02:06Não há uma forçação de barra para que os eleitores evangélicos votem em candidato A, B ou C.
02:14Obviamente que depois, especificamente a partir de 2010, depois de 2014,
02:21com uma série de temáticas que vem à tona, que é a desconstrução ou a crítica muito acirrada
02:30dos partidos de linha progressista, as crenças do público evangélico, conservador.
02:37Obviamente que do ponto de vista sociológico e antropológico, esse povo, eles precisam reagir.
02:43E muitas vezes a reação é realmente no voto, nas urnas e assim por diante.
02:49É, Samuel, agora passa a pergunta para o Newton Canito.
02:53Excelente, Samuel, muito obrigado também pela presença.
02:56Eu, pessoalmente, até acho, Samuel, que não é também um absurdo a pessoa consultar quem ela quiser para votar.
03:04E a tua pesquisa mostra claramente aqui que os evangélicos não são tão alienados
03:10quanto a elite progressista acha.
03:13Ou seja, eles podem até se influenciar pelo pastor, mas também não são completamente alienados.
03:17As elites progressistas que têm esse preconceito de achar sempre que eles são alienados.
03:21Mas eu queria te perguntar justamente isso, porque, na verdade, a ideologia progressista,
03:24o woke, para muitas pessoas, e eu sou uma delas, já virou uma seita.
03:29Ela já não é mais apenas uma ideia, é uma seita.
03:32E é uma seita anticristã, que defende muitos valores anticristãos, explicitamente.
03:38Fazem combate ao cristianismo quase diariamente.
03:41Então, nesse sentido, a esquerda também tem lá a sua fé.
03:45Eu queria te dizer se você concorda com isso, também acha que existe mesmo uma guerra de valores culturais.
03:51E como é que você acha que pode se conciliar essa guerra para a gente conversar mais?
03:55Maravilhoso, maravilhoso.
03:57A sua pergunta é interessantíssima.
04:00Mas a cultura woke, na verdade, ela entrou para o dicionário britânico a partir dessa perspectiva.
04:05Onde há desigualdade social, onde há preconceito, racismo, principalmente isso ficou muito mais acirrado de maneira global
04:14com a morte do George Floyd, Black Lives Matter, eu só queria dizer que vidas pretas importam, vidas brancas também
04:23importam.
04:24Existe sim a guerra, é uma guerra que a Amy Eric Smith, que é uma americana que ficou seis anos
04:33em juiz de fora,
04:34fazendo uma pesquisa e lançou um livro chamado Brazilian Democracy, Mobilizing the People of God.
04:41Democracia brasileira mobilizando o povo, o povo de Deus.
04:45Quando ela fala de guerra cultural, ela pontua justamente isso.
04:50São conflitos antagônicos, são cosmovisões ou visões de mundo totalmente diferentes
04:57em contextos democráticos que viram uma polarização total.
05:02Então, a cultura woke, na verdade, ela visa, sim, a desconstrução, não é?
05:10A desconstrução dos valores ocidentais, que estão muito pautados aí, eu vou dizer para você,
05:17eles são bíblicos e muitos, a direita defende que é o direito à vida, o direito à família,
05:23o homem, o papel da mulher e assim por diante.
05:27Concordo em gênero, número e grau com você.
05:30Então, não é simplesmente, as pessoas sempre levam para a arena política,
05:35ou simplesmente antropológica ou sociológica, há todos esses aspectos.
05:39Mas, para mim, há um choque de cosmovisão visando a desconstrução das crenças dos evangélicos.
05:47E tem um antropólogo, e aí eu encerro a minha fala, um antropólogo chamado Paul Hibbert.
05:52O Paul Hibbert diz que a cosmovisão, elas são pilares, é o nível mais profundo da cultura,
05:58que dá senso de conforto e de segurança a um povo, a uma etnia, a uma tribo.
06:05E quando essas crenças, elas são ameaçadas, o que está ameaçado, as crenças que sustentam esse povo,
06:11o que está ameaçado é a existência desse povo.
06:15Por isso, a reação em 2018, nas urnas, foi muito mais do que uma reação antropológica, sociológica e espiritual.
06:25Foram crenças e pilares que sustentam o povo evangélico, os que estavam sob ameaças.
06:32É isso.
06:34Samuel, boa noite.
06:35Eu queria lhe perguntar sobre a rejeição, se é que ela existe, de uma parcela, ou de uma parcela grande,
06:44inclusive, segundo alguns dizem,
06:46dos evangélicos que frequentam os cultos, ao discurso político dentro da igreja.
06:57Bom, é bem aceita a presença do discurso político ou a tendência maior é para que isso não...
07:07Eu vou usar uma palavra forte aqui, mas só porque não me ocorre outra.
07:11Contamine a religião.
07:14Tá certo. Muito obrigado.
07:16Excelente pergunta.
07:17Eu vou falar brevemente, primeiro.
07:20Há uma rejeição muito grande quando a gente fala de igrejas estatais.
07:23Igreja estatal é quando você tem o rei e a rainha como cabeça da igreja.
07:28Então, muitas igrejas que vieram para o Brasil, elas vieram nesse contexto de perseguição ou de imposição de uma religião
07:36que é top-down.
07:37Ela vem de baixo para cima.
07:39Então, igrejas históricas no Brasil, como batistas, metodistas, presbiterianas...
07:46Então, há uma rejeição, sim.
07:49O púlpito, ele não é monopolizado.
07:54Esses discursos políticos dentro dessas igrejas mais...
08:00Que a gente chama de protestantismo histórico, ele é um tanto rejeitado.
08:04A Igreja Assembleia de Deus e a Igreja do Brasil para Cristo,
08:07Assembleia de Deus surge aqui em 1910, ela é oficializada em 1911.
08:12Ela rejeita totalmente por muitos e muitos anos, embora ela vá ou o público-alvo dela fosse as comunidades, as
08:20classes sociais mais baixas.
08:22O primeiro pastor pentecostal a inserir membros da comunidade dentro do cenário político brasileiro,
08:30É um pernambucano que veio de Água Preta, uma cidade de Pernambuco, para o estado de São Paulo, com 29
08:35anos de idade,
08:35Que é o pastor Manuel de Mello.
08:37Em 1965, esse camarada faz uma mobilização nacional, para que as igrejas tenham uma representação política.
08:45Por quê?
08:46Era muito difícil conseguir uma licença para rádio, e ele queria pregar nas rádios, e assim por diante.
08:51Quando que isso toma uma conotação diferente?
08:54Quem insere, na verdade, essa temática do discurso político mais presente no púlpito?
09:01São as igrejas neopentecostais, que eu diria.
09:05Eu vou falar aí de Deus, eu vou falar aí da Igreja Renascer, um pouquinho antes a Igreja Universal,
09:13hoje estava lendo uma entrevista do Bispo Rodovalho,
09:16Agora, tudo isso não é à toa, você imagine só, se esse povo também não se agrupa,
09:23e os antropólogos e os sociólogos chamam de grupos sociais que precisam defender os seus direitos,
09:28e estar presente em todos os espaços.
09:31Então, há sim, isso não é bem visto, depende do segmento.
09:35As igrejas históricas, muito menos, na Igreja Assembleia de Deus, Brasil para Cristo,
09:40ela está um pouco mais presente hoje,
09:42mas nas igrejas neopentecostais, que eu citei, Universal,
09:48Igreja Sara, Nossa Terra,
09:53então, eles estão muito mais presentes.
09:55No entanto, eu cito mais uma vez,
09:58a Erika M. Smith,
10:01ela diz assim,
10:02nas pesquisas dela, foram seis anos de pesquisa,
10:05que o púlpito, ele só é politizado,
10:10ou é politizado na maioria das vezes,
10:12quando as crenças desse povo é atacada externamente.
10:17O antropólogo Juliano Speyer diz o seguinte,
10:21que quando a esquerda progressista, militante, bate,
10:26ou um político erra,
10:28eles batem em todos os evangélicos.
10:30Então, o discurso de um candidato progressista, de esquerda,
10:37ele é um tanto gourmet,
10:39mas lá na ponta, no dia a dia, no chão,
10:44na universidade, na maioria,
10:47os evangélicos protestantes são hostilizados por esse público.
10:52Samuel, eu queria fazer uma pergunta sobre Michelle Bolsonaro,
10:56porque ela está fazendo campanha, basicamente, dentro da casa dela,
10:59fazendo comida para o marido, cuidando do marido.
11:03Esse comportamento da Michelle de cuidadora repercute,
11:08ajuda ela dentro do público evangélico?
11:12Certamente.
11:13Você não tem dúvida.
11:15Sinceramente, eu observo,
11:18eu sou um simpatizante da Michelle por esse estilo mesmo,
11:22esse estilo conciliador,
11:24esse estilo família, mãe, conservadora,
11:27que distoa bastante das falas do presidente Jair Messias Bolsonaro
11:33quando estava na ativa.
11:36Então, esse é o jeito dela ser.
11:37Essa mulher, ela sempre viveu nos bastidores.
11:40Acho que foi um discurso em 2024,
11:42de 15 minutos, que ela fez na Paulista,
11:45na Avenida Paulista,
11:46houve uma convocação pelo ex-presidente Jair Messias Bolsonaro,
11:52e foi a partir daí, depois foi lançada uma pesquisa,
11:55e se ela fosse candidata à presidência,
11:58vamos pensar assim,
12:00gente, ela teria cerca de 63% dos votos,
12:04e o candidato, o presidente Lula,
12:06naquela época, ele teria cerca de 21%.
12:09Então, é uma influência, sim,
12:11e as mulheres precisam,
12:14e eu vou dizer, as mulheres, sejam elas evangélicas,
12:16ou aquelas que querem ser mãe e que cuidam.
12:20Essas mulheres não são mulheres recatadas,
12:22isoladas, sem influências.
12:25Elas exercem influência,
12:26seja dentro do contexto familiar,
12:28ou a partir do contexto familiar,
12:32educando os filhos e preparando-os para a vida.
12:35Me permita abrir um parêntese,
12:37e aí eu volto para você.
12:39Uma mulher chamada Suzanne Wesley,
12:43foi mãe do John Wesley,
12:46um dos maiores pregadores de todos os tempos,
12:48inclusive o pioneiro da igreja metodista no mundo.
12:52John Wesley se tornou o que ele se tornou
12:56por causa de uma mãe que cuidou dele.
12:59Então, certamente, ela exerce influência, sim, Duda,
13:02pode ter certeza absoluta.
13:06Carlos Graebi.
13:08Samuel,
13:08Vamos imaginar um Brasil com maioria evangélica,
13:13consolidada,
13:15uma maioria grande evangélica.
13:17Haveria alguma chance dessa maioria
13:19querer transformar as regras morais da Bíblia
13:23em lei para todos?
13:25Existe, eu vou traduzir,
13:27existe alguma tendência teocrática
13:30no evangelismo brasileiro?
13:33Olha só,
13:36eu, particularmente,
13:37eu rejeito totalmente
13:40essa imposição de qualquer fé.
13:44O Estado, ele precisa continuar laico
13:46com as suas mais
13:49diversas expressões religiosas que existem.
13:53Existem algumas linhas,
13:56às vezes, um tanto radicais,
13:59que umas falas que aparecem aqui e ali,
14:02que é como as pessoas quisessem
14:06transformar o Brasil
14:07numa espécie de teocracia,
14:10uma espécie de revolução cristã evangélica.
14:13Mas isso é uma minoria muito insignificante.
14:16Sabe por quê?
14:19Porque Martinho Lutero,
14:22João Calvino,
14:24a primeira cláusula da Constituição americana,
14:29ela vem fundamentada nesse direito à liberdade,
14:34à liberdade de consciência,
14:35à liberdade de imprensa,
14:36à liberdade de expressão.
14:40Eu, particularmente,
14:41quando eu observo o censo,
14:43o primeiro censo,
14:44no Brasil, no ano de 1870,
14:47os evangélicos,
14:49os protestantes e imigrantes,
14:51eram 0,1%.
14:54Os católicos eram 99,7% da população,
14:58ou seja,
14:59a religião era uma religião estatal,
15:01ou você era católico ou não católico.
15:03Eu prefiro, hoje, sinceramente,
15:06um Brasil religiosamente democrático.
15:09Agora, isso não significa
15:11que a fé evangélica, cristã, conservadora,
15:15não esteja constantemente sob ataque.
15:19Eu cuidei de uma adolescente
15:21que foi hostilizada dentro da universidade,
15:24o pastor Jorge Pinheiros,
15:26que é um Jorge Linhares de Belo Horizonte
15:29da Igreja Getsemane,
15:30foi convocado para depor,
15:31só porque disse que menino é menino
15:33e menina é menina.
15:36Então, a gente vive dias muito sombrios
15:39em termos de liberdade religiosa,
15:40e essa é uma temática que eu estudo
15:42a nível global, entende?
15:44Os países com maiores índices
15:46de hostilidade social e religiosa,
15:50China, Nicarágua, está quase que no topo.
15:54O Freedom House,
15:56quando fala de liberdade no Brasil,
15:59hoje, o site Freedom House,
16:01que mede, seria um termômetro
16:03da democracia no mundo,
16:05ele diz que nós temos 65% de liberdade
16:08aqui na internet,
16:0970% em níveis pessoais,
16:12nós temos jornalistas exilados
16:15e assim por diante.
16:16Então, nós vivemos dias sombrios.
16:18Eu prefiro um Brasil
16:21religiosamente democrático,
16:23com expressão religiosa
16:24para todos os gostos,
16:26para todos os públicos.
16:28Ótimo.
16:29Samuel Silva, obrigado pela sua participação
16:31aqui no Papo Antagonista.
16:32Boa noite.
16:36Até quando você vai deixar
16:38que criem narrativas
16:39para esconder a verdade de você?
16:41Bombardeio diário de informações,
16:43o barulho das redes sociais
16:45e as minhas verdades
16:46só servem para uma coisa,
16:48te confundir.
16:49Mas o jogo político real
16:50acontece nos bastidores.
16:52E Rodolfo Borges...
16:53Mas existe um lugar
16:54que não baixa a cabeça,
16:56onde a velocidade da notícia
16:58em tempo real
16:59de O Antagonista
17:00se une à investigação profunda,
17:02sem amarras,
17:04da revista Cruzoé.
17:05Nós vejamos quem está no poder.
17:08Não importa o partido.
17:11Assinar o nosso combo
17:12significa ter na palma da sua mão
17:15os bastidores de Brasília
17:16em tempo real,
17:18análises de quem conhece
17:20o jogo político por dentro
17:21e grandes reportagens
17:23que a imprensa tradicional
17:24muitas vezes prefere não mostrar.
17:29E hoje,
17:30você não precisa escolher
17:31entre a agilidade
17:32e a profundidade.
17:35Preparamos uma condição exclusiva
17:37para o nosso público do YouTube.
17:38Um combo promocional
17:40imperdível
17:41para você garantir
17:42o acesso total
17:43ao Antagonista
17:44e a Cruzoé
17:44por um valor
17:45que cabe no seu bolso.
17:47Não seja apenas
17:47mais um espectador da história.
17:49Faça parte do jornalismo
17:51que incomoda os poderosos
17:52e defende a sua liberdade.
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