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Dificuldade para organizar tarefas, tomar decisões e mudanças de comportamento são sintomas que merecem atenção precoce. Especialista explica que, embora raro em jovens, o diagnóstico correto é fundamental para o acompanhamento
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Transcrição
00:00Quando a gente pensa em Alzheimer, é comum associar a doença à velhice e à perda de memória,
00:05mas os primeiros sinais também podem aparecer antes dos 50 anos.
00:10Nessa fase, o Alzheimer é mais raro e pode se manifestar de outras formas,
00:16como dificuldade para organizar tarefas, tomar decisões e até mudanças de comportamento.
00:22E quanto mais cedo os sintomas são identificados, maior é a chance de buscar uma avaliação e acompanhamento adequados.
00:32Agora eu vou conversar com o neurologista, o doutor Daniel Escobar,
00:35que vai explicar o que diferencia um esquecimento comum dos alertas que merecem atenção.
00:41Doutor, muito boa tarde. Obrigado pela sua presença.
00:43Obrigado, boa tarde. Eu que agradeço o convite.
00:46Já vamos começar com essa pergunta, né, doutor?
00:48O que é um problema de memória simples, um lapso de memória daquela que pode ser um sinal de que
00:54o Alzheimer está chegando?
00:56Vou dar um exemplo para você aqui.
00:58Vamos supor que você, eventualmente com a sua família, passe um domingo e vá a um determinado restaurante e faça
01:04um jantar.
01:06Algumas horas depois, ou no dia seguinte, você se esquece, por exemplo, qual foi o refrigerante que você tomou naquele
01:13dia
01:13e depois de alguns minutos, alguns você lembra exatamente, ah, lembrei, tomei uma Coca-Cola.
01:18Por outro lado, numa situação diferente, você imagina que você tem então esquecido que foi ao restaurante naquele dia
01:25e esquece que bebeu um refrigerante ou que comeu naquele dia e mesmo com algumas dicas,
01:32olha, a gente foi lá, estava todo mundo junto, não consegue se lembrar.
01:36Então, por meio desse exemplo, a gente consegue diferenciar que o esquecimento, quando ele é patológico,
01:41a pessoa, mesmo com dicas, ela não se lembra daquilo que aconteceu ou não se lembra da cena como um
01:47todo.
01:47Agora, já um esquecimento que a gente pode dizer que pode ser normal, a pessoa se esquece apenas de alguns
01:53detalhes,
01:53depois de alguns minutos ele lembra, com algumas dicas fica fácil para a pessoa associar o que aconteceu.
01:59Então, sim, a gente consegue de uma forma simples diferenciar o que é um esquecimento patológico
02:03do que é um esquecimento danoso, como no caso da doença de Alzheimer.
02:06Claro, existem outras formas da gente, aos poucos, entender.
02:09Existem aqueles casos, doutor, de que, por exemplo, o idoso vai e coloca uma água para esquentar,
02:16esquece aquela água ali e isso acaba pegando fogo, um acidente.
02:21Esse tipo de esquecimento significa o quê? Um esquecimento que pode causar um problema maior.
02:27Também é um sinal?
02:28Com certeza. Isso é um sintoma muito importante.
02:32Quando nós temos um esquecimento que ele está trazendo prejuízo funcional ou alguma alteração cognitiva
02:39na qual o paciente não é mais capaz de fazer aquilo que ele fazia antes, por exemplo,
02:45fazer o seu imposto de renda, exercer as suas tarefas do lar, ir ao supermercado fazer as compras,
02:50utilizando uma lista, fazer uma compra utilizando um aplicativo bancário,
02:55ou seja, ele perde a funcionalidade naquilo que antes ele exercia,
03:00nós conseguimos caracterizar dessa forma um quadro demencial.
03:03Abaixo dos 50 anos, doutor, que a gente está falando aqui,
03:07o esquecimento, quando ele não é comum, abaixo dos 50 anos, por exemplo?
03:14O Alzheimer é uma doença que, com o tempo, os quadros demenciais de uma forma geral,
03:20ele vai aumentando a prevalência com o tempo.
03:22Acima dos 90 anos, é uma prevalência relativamente alta.
03:25Em algumas casuísticas, mais de 5% da população, 10% da população.
03:30Porém, com idades jovens, como os pacientes de 50 anos,
03:34na verdade, a gente utiliza um marco de 65 anos, a gente fala de Alzheimer precoce.
03:38E isso, certamente, é uma doença que é rara, mas ela é presente na população.
03:43Hoje em dia, nós, nos casos raros, a gente consegue fazer uma investigação complementar mais profunda,
03:50em alguns casos, o percentual pequeno,
03:52até identificar características genéticas que possam ser responsáveis por essa situação.
03:56Além desse esquecimento, que é algo visível pela doença,
04:02que outras formas vocês levam em consideração para fazer um diagnóstico de Alzheimer?
04:10A gente tem que avaliar a cognição do paciente como um todo.
04:14É claro, a memória é um ponto fundamental da nossa cognição.
04:19Especificamente no caso de Alzheimer, a memória é especialmente afetada,
04:24mas não é o único.
04:25Nós temos outros pontos que devem ser avaliados e devem ser percebidos pelos familiares.
04:31Por exemplo, o senso crítico, a capacidade de abstração,
04:35a velocidade que o paciente processa as informações,
04:39a capacidade de fala, de se expressar e de entender aquilo que acontece,
04:44a capacidade de fazer cálculos.
04:47Enfim, a cognição é formada por uma série de domínios que vão muito além da memória.
04:54Existem, por exemplo, doutor, algo do meio externo,
05:00estresse, ansiedade, depressão, falta de sono,
05:04que podem gerar um quadro de Alzheimer ou necessariamente isso é genético?
05:09Essa pergunta é muito importante, porque nós vivemos numa época, numa era,
05:18onde existem, de fato, novas terapias e novos medicamentos que freiam a evolução da doença,
05:23especificamente do Alzheimer.
05:24Mas é fundamental entendermos que existem fatores de risco que são modificáveis.
05:29E aqui existe um trabalho muito importante na literatura neurológica
05:35que aponta uma série de fatores, 14 fatores, que a gente consegue prevenir
05:40ou postergar cerca de 47% dos quadros demenciais.
05:45Olha o impacto disso.
05:47Apenas com atuações que acontecem desde a fase inicial da vida, como, por exemplo, a educação,
05:55a fase moderada da vida, por exemplo, controle de colesterol, controle de pressão, controle de glicemia,
06:03investigar e tratar a perda auditiva, investigar e tratar a perda visual, a poluição do ar
06:09e também fatores que atuam especificamente na fase tardia da vida do indivíduo,
06:15como, por exemplo, o isolamento social.
06:17Então, são modificações que estão associadas ao estilo de vida, ao comportamento e ao ambiente
06:24que atuam de forma a prevenir e evitar postergar os quadros demenciais.
06:30Vamos falar, doutor, de cura, de tratamento.
06:37O que acontece é o seguinte, uma vez firmado o diagnóstico de Alzheimer, nos últimos 30 anos,
06:52nós só tínhamos medicações que tratavam especificamente os sintomas da doença.
06:59melhoravam um pouco a memória, melhoravam um pouco a velocidade de processamento de informações,
07:04a função executiva, ou seja, deixavam o paciente um pouco melhor em relação aos que tomavam,
07:10aos que não tomavam, mas a evolução da doença não era possível de intervir.
07:15Essa realidade começou a modificar um pouco com o entendimento um pouco mais da fisiopatologia,
07:22de como funciona a doença.
07:23E agora, além desses medicamentos, nós temos, sim, grupo específico de medicamentos
07:30que atuam freando a evolução da doença.
07:33E aqui é importante colocar que nós não estamos falando de cura da doença
07:37e também não estamos falando de parar de evoluir, do paciente ficar bem.
07:41O que é possível de ser feito hoje em dia é fazer com que a doença continue evoluindo, sim,
07:47mas de uma forma mais branda.
07:49É um marco, sim, no tratamento das doenças, mas ainda tem muito que se entender e estudar sobre isso.
07:54Agora, é caro o tratamento, doutor?
07:57É, o tratamento tem um custo bem elevado, ainda não é acessível para a grande maioria da população,
08:03não está incorporado pelo SUS.
08:05Esse de ponta, né?
08:07Esse de ponta.
08:07O que a gente pode ter hoje para a maioria das pessoas?
08:12Para a maioria das pessoas, com custo acessível, nós temos as medicações que atuam,
08:19não atuam freando a evolução da doença, mas que atuam melhorando os sintomas da doença.
08:25Esses já estão disponíveis na rede pública.
08:27Existe uma perspectiva de baratear, por exemplo, o valor desses medicamentos que acabam regredindo a doença?
08:34Com certeza.
08:35É o curso natural.
08:36Da mesma forma que vão surgir novos medicamentos que vão atuar em outros alvos terapêuticos,
08:43da mesma forma que o Estado e as operadoras de saúde vão se ver obrigadas a incorporar essas medicações
08:50e a força de negociação, com certeza, vai diminuir, a pressão popular também vai diminuir,
08:55são vários fatores que vão acabar convergindo para que aconteça uma...
08:59seja mais fácil da população geral ter acesso a esses remédios.
09:03Importante, né?
09:03Gente, conversei aqui com o neurologista, o doutor Daniel Escobar Bueno Peixoto.
09:08Doutor, muito obrigado pela sua participação e pelos esclarecimentos.
09:11Eu agradeço.
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