00:00Minha filha mamava. Minha filha era uma criança de 3 anos e 10 meses que mamava e usava fralda.
00:06Então, quem tem uma criança pequena sabe a demanda que exige.
00:09E por 7, 8 meses eu acordava todos os dias na madrugada nesse horário do mamar dela,
00:15porque fisiologicamente eu estava condicionada a acordar para dar mamar para minha filha.
00:20Então, foi muito difícil, tem sido muito difícil.
00:24Essa dor permanece. Eu consegui aprender a administrar um pouco,
00:30mas obviamente que tem dias que eu estou mais vulnerável e em outros eu me sinto mais forte.
00:35Mas essa força vem dela, porque não é justo.
00:38Ela era linda, em pleno desenvolvimento, saudável, e ela entrou naquela aeronave feliz da vida sauditante,
00:45achando que iria fazer uma viagem confortável e segura.
00:49Então, não é justo com ela, não é justo com nenhuma dessas vítimas.
00:52Então, nesses dois últimos anos, hoje, eu trabalho diariamente pela associação,
00:57enquanto vice-presidente, por mim, mas também por todos nós,
01:01porque nós estamos juntos nessa luta até o fim.
01:05Eu lembro da minha filha, na quinta-feira, o dia antes, quando ela diz para mim,
01:14tá bom, mãezinha?
01:15Porque ela nunca desligava o telefone.
01:17Eu que tinha que dizer, minha filha, você tá cansada, vai descansar.
01:20É, tá bom, mãezinha?
01:22Amanhã a gente conversa, né?
01:24A gente se fala.
01:25Eu falei, é, minha filha.
01:26Então, às 21h30.
01:29E até então, ela não tinha certeza, porque a convidada era outra médica,
01:35mas o hospital resolveu de última hora que era ela,
01:39porque ela tinha um resultado mais de excelência.
01:42E ela entrou no lugar da outra.
01:45E aí, ela não deu tempo, ela me avisar.
01:47Ela foi trabalhar, foi arrumar as coisas correndo.
01:51E às 5h da manhã, ela foi atender os pacientes, saiu às 10h, correndo para o aeroporto.
01:59Foi a última a entrar no avião.
02:01Ela foi a última a entrar.
02:03E ali, tudo que eu queria é que ela tivesse perdido aquele voo.
02:06E eu só fui saber pela televisão.
02:10Eu só fui saber na hora que estava acontecendo, quando meu gênio liga.
02:15Eu olhando a TV.
02:16Como é que tem sido esses dois anos?
02:18Acontece isso.
02:19De luta, de dor, de sofrimento, de choro, de muita força, de esperança.
02:26Um trabalho voltado totalmente a buscar a justiça, a buscar quem eram os culpados,
02:33quem eram os culpados, quem eram os culpados, quem eram os culpados por matar tanta gente.
02:37Tem sido anos sofridos.
02:39Eu choro muito e eu sinto ela e eu sinto saudade dela.
02:43Eu vejo uma criança, eu já fico fazendo as minhas contas se ela estaria naquela fase,
02:48se a mãe de roupa ela estaria usando.
02:50Então, de fato, a perda de uma filha é você continuar de forma amputada,
03:00não fisicamente, mas emocionalmente.
03:03É muito difícil.
03:04Muito obrigado.
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