Pular para o playerIr para o conteúdo principal
  • há 2 dias
A pessoa olha para os móveis que recém comprou e imagina a lama. Olha para o carro e pensa onde vai deixá-lo. Olha para o cachorro e calcula como retirá-lo. Olha para o pai idoso e teme não conseguir carregá-lo. A vida, no Rio Grande do Sul, virou um plano de evacuação permanente.

Categoria

🗞
Notícias
Transcrição
00:00O futuro, a frase é forte, eu sei, mas o futuro no Rio Grande do Sul, ele virou o lugar
00:05da próxima enchente.
00:06É assim que grande parte dos gaúchos enxerga o futuro.
00:08O futuro deveria ser o território dos planos, dos sonhos, né?
00:11Onde a gente projeta o crescimento dos filhos, o apartamento quitado, as férias de verão, uma velhice tranquila.
00:16Não, o futuro aqui é uma ameaça.
00:18O futuro dá medo.
00:19O futuro é o El Ninho, chegando em setembro.
00:22O que a gente viu na semana passada, nos vales do Caí, do Taquari,
00:25com famílias empacotando a dignidade em sacos de lixo mais uma vez,
00:30aquilo não teve a mesma dimensão de 2024, claro.
00:34Mas teve uma coisa que é insuportável para quase todo cidadão que vive aqui,
00:38que é a sensação de ver tudo de novo.
00:40Parece um fantasma que entrou debaixo da nossa cama e não vai embora nunca.
00:44Esse pavor fica claro nos números, inclusive.
00:47Dois em cada três gaúchos, segundo uma pesquisa do IBGE, divulgada agora em julho,
00:51e se dizem mentalmente abalados até hoje por causa das enchentes de dois anos atrás.
00:56E não tinha como ser diferente.
00:58Tem um psicanalista, o Donald Winnicott,
01:00ele dizia que a nossa sanidade depende, antes de qualquer coisa,
01:04de um ambiente minimamente confiável.
01:07Ele chamava isso de holding.
01:08É a capacidade que o nosso entorno, que o mundo à nossa volta tem,
01:12de nos sustentar, de oferecer alguma segurança para a gente poder existir.
01:16Então, por exemplo, você dorme porque acredita que a sua casa, claro,
01:20vai garantir alguma proteção.
01:22Então não dá para dormir.
01:23Você vai para a rua, sai para trabalhar, porque supõe que vai conseguir voltar.
01:27Compre um sofá grande porque nunca vai precisar e salta o sofá até o telhado.
01:32Entende?
01:32É essa confiança banal, quase invisível,
01:36que nos permite gastar energia vivendo
01:38e não pensando o tempo todo em estratégias para escapar do horror.
01:42Foi essa confiança no ambiente que acabou.
01:45São centenas de milhares de gaúchos
01:48experimentando uma modalidade nova de tortura psicológica,
01:51como se sofressem por um luto que ainda não aconteceu,
01:54mas que parece inevitável.
01:57Então a pessoa olha para os móveis que recém comprou
01:59e já imagina a lama.
02:01Olha para o carro e pensa onde vai poder estacionar.
02:04Olha para o cachorro e calcula como vai tirar o bichinho dali.
02:07Olha para o pai idoso e tem medo de não conseguir carregar o próprio pai.
02:11A vida virou um plano de evacuação permanente.
02:14Não há saúde emocional que resista.
02:17E por isso eu tenho achado quase um insulto
02:19continuar chamando essa gente de guerreiro, resiliente.
02:22Ninguém quer esse troféu de resistência eterna.
02:24Ninguém quer a obrigação de recomeçar indefinidamente.
02:27O que as pessoas querem é o direito de baixar a guarda.
02:30O direito à tranquilidade.
02:32E só vão ter esse direito quando o entorno,
02:35quando o mundo à sua volta se provar confiável.
02:37Ou seja, quando o sistema de contenção segurar a enxurrada,
02:40quando a casa de bombas funcionar na inundação,
02:44quando o alerta de enchente chegar a tempo
02:46para o cidadão sentir com clareza
02:48que não está jogado a própria sorte,
02:49só assim o futuro vai voltar a ser um lugar
02:52onde vale a pena morar.
02:54Por enquanto,
02:56por enquanto ele é o lugar da próxima enchente.
02:58Obrigado.
02:58Obrigado.
02:59Obrigado.
02:59Obrigado.
02:59Obrigado.
Comentários

Recomendado