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DiversãoTranscrição
00:00Não porque eu mentisse de verdade, mas por causa dessa coisa no meu pulso, a pulseira da verdade.
00:06Mamãe era obcecada por criar filhos com base na ciência.
00:10Então, quando eu e minha irmã gêmea Eva nascemos, ela colocou essas tiras na gente.
00:14Luz verde significa verdade.
00:16Luz vermelha é manipulação da realidade.
00:19A tira da Eva sempre verde.
00:21Ela podia cortar o vestido caro da mamãe, culpar o gato, e o negocinho brilhava que nem árvore de Natal.
00:28Eu não fui.
00:30Ela dizia. Luz verde acreditava.
00:33Eu...
00:33Eu dizia. Mãe, estou com fome.
00:36E piscava vermelho.
00:38Castigo na hora.
00:40E o castigo da mamãe não era leve.
00:42Sem comida, trancada no quarto.
00:46Apagão digital, sem celular, sem Wi-Fi, nada.
00:50Ela dizia.
00:51A máquina não mente, Estela.
00:53Passa fome agora, aprende depois.
00:55Estou fazendo isso pro seu bem.
00:57Depois de 10 anos disso, eu também comecei a acreditar.
01:01Talvez eu tivesse nascido errada mesmo.
01:04Na véspera de ano novo, tudo mudou.
01:08Véspera de ano novo, tudo mudou.
01:11Mamãe se preparava pra levar a Eva pra ver a bola cair na Times Square.
01:15E foi aí que a dor veio.
01:17Como uma faca girando na minha barriga.
01:20Eu desabei no chão.
01:21Meu corpo magro se encolhendo todo.
01:25Mãe, por favor, tá doendo.
01:28A tira piscou vermelho.
01:29Ela olhou pra mim, nojo nos olhos.
01:32Boa tentativa, Estela.
01:34Fingindo que tá doente pra estragar nossa noite?
01:37Patológica.
01:37Ela pegou a mão da Eva e foi pra porta.
01:41Eu queria gritar.
01:43Mas uma parte de mim pensou.
01:44Talvez ela esteja certa.
01:46A tira tá vermelha.
01:48Então eu devo estar mentindo.
01:49Eu não devo estar sentindo dor de verdade.
01:52Desculpa, mãe.
01:53Não vou mentir mais.
01:54Mas a dor piorou.
01:56Muito pior.
02:01A maçaneta girou.
02:03Por um segundo eu pensei.
02:04Ela tá voltando.
02:06Ela é médica.
02:07Ela vai saber que tem algo errado.
02:08Rápido.
02:09Os fogos vão começar.
02:10A Eva tá esperando.
02:12Por favor, tem algo muito errado.
02:15Sinto como se fosse morrer.
02:17Ela olhou pro meu pulso.
02:19Luz vermelha, piscando loucamente.
02:22Ela se agachou, pegou meu queixo e me forçou a olhar pra ela.
02:25Estela, até quando você vai continuar com isso?
02:27Não pode simplesmente ser honesta?
02:29Fica aqui e pensa no que você fez.
02:32Querida, a gente deixa um pouco de comida pra ela?
02:35Mamãe se levantou.
02:37Comida?
02:38Ela tem um monte de guloseimas que comprou com dinheiro roubado.
02:40Ela não vai passar fome.
02:41Esfregando as mãos como se eu fosse lixo.
02:44Tranca a porta.
02:45Quando essa tira ficar verde, a gente conversa.
02:47Mas...
02:48Mas o quê?
02:50Educação mole, é por isso que ela tá assim.
02:52Olha a Eva.
02:53A tira dela é sempre verde.
02:56Estela é só uma mentirosa compulsiva.
02:58Ela precisa de disciplina.
02:59Mas meu armário ali estava vazio.
03:01A Eva roubou aquele dinheiro.
03:03A Eva comeu as guloseimas.
03:05Eu tentei me defender uma vez.
03:08Eu também não peguei.
03:10Luz vermelha.
03:12Três dias trancada só com pão e água.
03:15A Eva espiou pela porta.
03:17Fez uma careta pra mim.
03:19Tchau, mana.
03:20A gente vai ver os fogos bonitos.
03:22A porta trancou.
03:24A casa ficou em silêncio.
03:25Sim, sim.
03:26Só eu.
03:27Sozinha.
03:29A dor era insuportável.
03:31Mas eu ficava pensando.
03:33Mamãe tá certa.
03:34A máquina não mente.
03:37A tira tá vermelha.
03:38Então eu devo estar mentindo.
03:40Eu não estou sentindo dor.
03:42Eu não estou sentindo dor.
03:44Eu não estou sentindo dor.
03:47Eu rastejei até minha mesa.
03:48Eu tinha que escrever.
03:50Essa era a regra.
03:52Se a tira piscasse vermelho.
03:53Eu tinha que escrever uma redação de desculpas.
03:55De mil palavras.
03:56Ou mamãe nunca me soltaria.
03:58Eu sou uma mentirosa.
04:01Abri meu diário.
04:02Páginas e páginas de desculpas.
04:04Que eu escrevi ao longo dos anos.
04:06Mas dessa vez.
04:07Eu queria escrever a verdade.
04:09Minha visão ficou embaçada.
04:11Eu mal conseguia enxergar.
04:13Minha mão tremia enquanto escrevia.
04:15Mãe.
04:16Eu realmente te amo.
04:18Tá doendo de verdade.
04:20Por que você não acredita em mim?
04:22Por favor.
04:23Acredita em mim só uma vez.
04:25No momento em que terminei a última palavra.
04:28A dor sumiu.
04:29Simplesmente.
04:30Sumiu.
04:31Eu me senti leve.
04:33Sem peso.
04:34Olhei pra baixo.
04:35Eu estava flutuando.
04:37E lá.
04:39Caído sobre a mesa.
04:40Estava meu corpo.
04:41Imóvel.
04:43A pulseira da verdade.
04:44Ainda piscando vermelho no pulso de uma garota morta.
04:47Pá.
04:48Eu estou morta.
04:50Eu ouvi risadas.
04:52Mamãe.
04:52Papai.
04:53Eva.
04:54Entrando pela porta da frente.
04:56Os fogos de hoje foram incríveis.
04:58Principalmente aquele com carinha sorrindo.
05:01Que nem nossa Eva.
05:02A voz da mamãe estava tão calorosa.
05:05Eu nunca a ouvia assim quando falava de mim.
05:08Eu queria ajudar eles a tirarem os casar.
05:11Era o que eu sempre fazia.
05:13Mãe.
05:14Estendi os braços pra abraçar ela.
05:16Meus braços passaram direto pelo corpo dela.
05:18Como o vento.
05:20Ela estremeceu.
05:21Por que tá tão frio aqui?
05:23O aquecimento desligou?
05:24Fiquei parada ali olhando pras minhas mãos transparentes.
05:28É mesmo.
05:29Mortos não podem abraçar os vivos.
05:32Vamos ver a Estela?
05:33Papai falou casualmente.
05:35Ela não comeu.
05:36Se ela me achar morta, ela vai ficar triste?
05:39Ela vai se arrepender?
05:50Ainda fazendo teatro?
05:52Acha que eu vou te carregar pra cama?
05:55Estela, você tem 10 anos.
05:56Não 5.
05:57Eu gritei com ela.
05:58A menos de um metro de distância.
06:00Mãe, eu não estou brincando.
06:03Eu estou morta.
06:04Olha pra mim.
06:06Toca em mim.
06:07Eu estou gelada.
06:08A Eva passou por ela.
06:10Levantou o pulso com aquele sorrisinho de superioridade.
06:13Olha, minha tira tá verde.
06:15A da Estela ainda tá vermelha.
06:17Ela mente até nos sonhos.
06:20Mamãe afagou a cabeça da Eva.
06:21Essa é minha garotinha boazinha.
06:23Ignora a mentirosa.
06:24Deixa ela aí.
06:26Talvez ela aprenda a ser honesta.
06:28Papai espiou.
06:29Será que a gente não coloca ela na cama?
06:31Tá gelado.
06:32Colocar na cama?
06:33O especialista em criação diz que tratamento com frio é a solução.
06:36Olha aquela luz vermelha.
06:38Ela ainda tá em modo de desafio total.
06:40Vamos.
06:41A gente tem que visitar a vovó amanhã.
06:43A porta trancou de novo.
06:44Eu flutuei ao lado do meu cadáver, olhando pra aquele único ponto de luz vermelha no escuro.
06:50Mãe, se você tivesse chegado mais perto, se você tivesse tocado na minha mão, você
06:56saberia que eu estava gelada.
06:57Mas você não tocou.
06:59Naquela noite, um rato saiu do meu armário vazio.
07:02Eu costumava gritar sempre que via ratos.
07:05Mas agora eu só flutuava perto do teto, vendo ele correr pelo meu corpo morto.
07:10Ele mordeu meu dedo do pé.
07:12Tá tudo bem.
07:13Você não sente mais nada.
07:15Vai acabar logo.
07:17Na manhã seguinte, a luz do sol entrava pela janela.
07:20Nenhum calor chegou ao meu corpo.
07:22Na cozinha, dava pra ouvir mamãe fazendo café.
07:25O cheiro de bacon e ovos entrava pela porta.
07:29Meu favorito.
07:29Mas mamãe sempre dizia que mentirosos não merecem carne.
07:34Então eu só ganhava brócolis cozido.
07:36Ela estava batendo as panelas de propósito.
07:39Tentando me tentar açaí.
07:41Tentando me fazer ceder e me desculpar por coisas que nunca fiz.
07:46Antigamente?
07:48Eu talvez tivesse cedido, mas eu não preciso mais de comida.
07:53Estela ainda não saiu?
07:56Estela ainda não saiu?
07:58Papai perguntou lendo o jornal.
08:00Ela é tão teimosa.
08:01Ela pode comer ou não.
08:03Não me importo.
08:05A Eva foi até minha porta e fez questão de cheirar o ar.
08:09Depois gritou dramaticamente.
08:11Mãe!
08:12O quarto da Estela tá fedendo.
08:14Ela fez cocô aí dentro.
08:16Mamãe veio furiosa batendo na porta.
08:19Estela, você é um animal?
08:21O banheiro é logo ali.
08:23Você foi no chão só pra me provocar?
08:26Lembrei de quando tinha seis anos.
08:28Tive uma intoxicação alimentar.
08:30Não consegui chegar a tempo no banheiro.
08:31Sujei minha calça.
08:33Mamãe não me ajudou a limpar.
08:35Ela me fez ficar no quintal.
08:37Apontou pra mim e disse pros vizinhos.
08:39Olha isso!
08:40Ela é tão bagunçada que nem consegue usar o banheiro sozinha.
08:44Agora ela achou que eu estava suja de novo.
08:46Deixa ela.
08:47Mamãe disse, acenando a mão como se estivesse espantando uma mosca.
08:50Deixa ela sentar no próprio fedor.
08:53Mas papai se levantou, franzindo a testa.
08:55Esse cheiro tá muito ruim.
08:56Eu devia dar uma olhada.
08:58Pode ser um rato morto ou algo assim?
09:01Papai, por favor, abre a porta.
09:03Eu tô aqui.
09:04Balancei meus braços transparentes freneticamente.
09:07A mão do papai tocou na maçaneta.
09:09O celular dele estava tocando.
09:11O rosto do papai ficou pálido.
09:13O quê?
09:14O servidor caiu?
09:15Tá bom, tá bom.
09:16Já tô indo.
09:17Querida, dê um problema no trabalho.
09:19Vou ficar fora alguns dias.
09:22Espera.
09:22E a Estela?
09:23Ele já estava fora da porta.
09:25Se a ligação tivesse vindo um segundo depois, eu teria sido encontrada.
09:30Talvez então eu não tivesse apodrecido sozinha.
09:33Naquela tarde, mamãe levou a Eva pra fazer compras.
09:36A casa ficou vazia, exceto pelo meu cadáver.
09:39Quando voltaram de noite, carregadas de lagosta cara e presentes, o cheiro tinha piorado.
09:44Mamãe engasgou assim que entrou.
09:47Estela, você tá tentando transformar esse lugar num lixão?
09:51Ela nem abriu minha porta.
09:52Só pegou fita adesiva e selou a fresta embaixo.
09:56Você quer ser nojenta?
09:57Tá bom, fica aí.
09:59Não fede a minha casa.
10:01Ela bateu as mãos, satisfeita.
10:04Depois foi cozinhar a lagosta.
10:06Eu olhei pra porta selada.
10:08Meu último fio de esperança sufocou debaixo daquela fita.
10:12No terceiro dia, nem a fita adesiva conseguiu segurar o cheiro.
10:17Mamãe estava arrumando flores frescas, tentando disfarçar.
10:20Mas o fedor da morte é inconfundível.
10:23Doce, podre, oleoso.
10:27Ela cortou um caule de rosa com força demais.
10:29Um espinho furou a mão dela.
10:32Ela perdeu a paciência.
10:33Estela.
10:34Ela pegou um rolo de massa na cozinha e foi pra cima do meu quarto.
10:38Cansei de você.
10:40Sua pirralha nojenta.
10:42Hora de você aprender o que é dor de verdade.
10:45Não entra, mãe.
10:46Por favor.
10:47Eu estou decomposta.
10:48Você vai se assustar.
10:50Mesmo que ela nunca me amasse,
10:52eu não queria que ela me visse daquele jeito.
10:54Mas ela passou direto por mim.
10:57Arrancou a fita.
10:59Enfiou a chave reserva na fechadura.
11:02Porta se abriu de repente.
11:05O cheiro bateu nela como uma parede.
11:08Ela cambaleou pra trás, engasgando.
11:11Estela, o que você está fazendo?
11:14Mamãe gritou.
11:15Não foi um som humano.
11:17Foi um grito cru gutural que rasgou a garganta dela.
11:20Ela cambaleou pra trás, bateu na estante.
11:24Um vaso quebrou.
11:25Mas ela nem pareceu sentir a dor.
11:27Ela só ficou me encarando, olhos arregalados, sem piscar.
11:32Não, não, não, não.
11:33Isso é maquiagem.
11:34Efeitos especiais.
11:35Estela, levanta.
11:36Não estou brava mais.
11:38Para de me assustar.
11:39A mão dela se estendeu, trêmula, pra tocar meu braço.
11:43No segundo em que a pele dela tocou meu cadáver,
11:46ela recuou como se tivesse sido queimada.
11:48Aquele frio era real demais.
11:51Dona Lisa, a vizinha ligou pro 190.
11:52190, ouviu um grito.
11:54Ela tinha ouvido os gritos.
11:55Quando viu o que tinha no meu quarto, ela desmaiou no corredor.
11:59Em minutos, sirenes.
12:01Polícia, um legista.
12:04Colocaram a fita de isolamento.
12:06Câmeras piscaram sobre meu corpo.
12:08Mamãe sentou no sofá, a mão de uma policial no ombro dela.
12:11Bochuk, sei lá.
12:12Ela balbuciava.
12:13Ela estava fingindo.
12:15Ela sempre mente.
12:16A tira estava vermelha.
12:18Máquinas não mentem.
12:20Eu só estava ensinando ela.
12:21Eu fiz isso pro bem dela.
12:23Ninguém respondeu.
12:24Todos olhavam pra ela como se fosse um monstro.
12:27O legista se agachou perto do meu corpo.
12:30Ele resmungou baixinho.
12:32Desnutrição severa.
12:34Falência de órgãos.
12:36Essa criança passou fome por pelo menos um mês.
12:37Ele tentou remover a pulseira da verdade com cuidado.
12:40Mas ela tinha.
12:42Fundido.
12:43Droga.
12:44Ele xingou.
12:45Ele teve que usar ferramentas pra arrancar.
12:48Mesmo morta, minha alma estremeceu.
12:57Um policial pegou meu diário.
13:00Colocou luvas.
13:01Começou a ler.
13:02Os olhos de mamãe grudaram naquele livro.
13:04De repente, ela foi pra cima dele.
13:07Essa é a confissão dela.
13:08Ela admite que mentiu.
13:10Olha, ela mesma escreveu.
13:12O policial empurrou ela pra trás.
13:14Colocou o diário num saco de evidências.
13:16Vamos determinar o que é verdade.
13:17Foi aí que papai chegou em casa.
13:20Ele viu o saco preto sendo levado numa maca.
13:23Viu o zíper comprido que selou minha vida inteira.
13:27As pernas dele fraquejaram.
13:29Ele desabou.
13:30Se molhou todo.
13:32A Eva ficou perto, chorando confusa.
13:35Ela apontou pra pulseira da verdade manchada de sangue na mesa de evidências.
13:40Por que a tira da Estela tá preta?
13:42A minha ainda tá verde, vê?
13:44Ela levantou o pulso.
13:46A luz verde piscava alegremente.
13:48Era grotesco.
13:50Os policiais começaram a interrogar mamãe na sala de estar.
13:53Ela pegou a pulseira da verdade da mesa como se fosse uma boia salva-vidas.
13:57Testa isso.
13:58Essa tira a prova que ela estava mentindo.
14:00Luz vermelha significa mentira.
14:02Eu nunca maltratei ela.
14:04A máquina me disse.
14:05Eu só estava educando ela.
14:07O policial olhou pra ela como se ela tivesse enlouquecido.
14:11Senhora, a vítima apresenta sinais de desnutrição extrema.
14:14Isso é disciplina.
14:16É pra ensinar ela a ser honesta.
14:19Mamãe estava gritando agora.
14:21Aí ela fez uma loucura.
14:23Vocês não acreditam em mim?
14:25Tá bom.
14:26Vou usar.
14:27Eu não estou mentindo.
14:28Olha, vai ficar verde.
14:30Ela arrancou a tira, ainda manchada com meu sangue e pedacinhos de pele, e enfiou no próprio pulso.
14:37Clique.
14:39Trancou.
14:40O material apertou na pele dela.
14:42Pegajoso.
14:44Frio.
14:45Ela respirou fundo e tentou se acalmar.
14:48Ela precisava provar que era inocente.
14:51Precisava provar que a criação dela estava certa.
14:54Ela levantou com o pulso, olhos arregalados.
14:57Olha, eu sou a Raquel.
14:59Eu sou a mãe da Estela.
15:00Isso é um fato.
15:02Verdade absoluta.
15:04A luz vermelha explodiu, brilhante e violenta, como uma ferida nova se abrindo.
15:11A expressão confiante de mamãe se desfez.
15:14Ela bateu na tira como se fosse uma TV quebrada.
15:17O quê?
15:18Não.
15:19Eu disse a verdade.
15:20Eu sou a Raquel.
15:22Ela começou a falar mais rápido, pânico na voz.
15:26Tá quebrado.
15:27O legista quebrou.
15:28Deixa eu tentar de novo.
15:29Eu nunca maltratei ela.
15:32Fiz isso pro bem dela.
15:33Eu amo ela.
15:34A luz vermelha piscou mais rápido.
15:37E de repente, ela lembrou de mim.
15:40Com dez anos, levando o castigo máximo.
15:44Encolhida no chão, mordendo o lábio pra não gritar.
15:48Era assim que era.
15:50Mamãe perdeu totalmente o controle.
15:52Ela começou a gritar com a tira, cuspe voando.
15:56Por que tá vermelho?
15:57Eu tô falando a verdade.
15:58Fica verde.
16:00Seu treco velho.
16:01Você tá me armando.
16:03Mas a luz vermelha continuou piscando.
16:05Como se estivesse zombando dela.
16:07Você é mentirosa.
16:08Você é mentirosa.
16:10Você é mentirosa.
16:13Chega.
16:14Um técnico deu um passo à frente.
16:16Ele já estava de saco cheio desse circo.
16:18Para.
16:18Esse negócio não é um detector de mentiras.
16:21Ele pegou o manual do usuário que acharam durante a busca.
16:24Bateu na mesinha de centro.
16:26Isso é um monitor biométrico básico.
16:27Ele mede a condutividade da pele e a frequência cardíaca.
16:30Quando você tá nervosa, assustada, com dor, sua frequência cardíaca dispara.
16:34A luz fica vermelha.
16:35Só isso.
16:37Ele foi até mamãe que ainda estava no chão.
16:39E a voz dele ficou gelada.
16:41Pensa na sua filha.
16:42Apêndice rompido.
16:43Falência de órgãos.
16:45A dor devia ser insuportável.
16:47O coração dela estava acelerado.
16:48Ela estava aterrorizada.
16:49E o que você viu?
16:50Uma luz vermelha.
16:52Então você castigou ela mais.
16:54O que deixou ela mais assustada?
16:56O que acelerou mais o coração dela?
16:59O que deixou a luz mais vermelha?
17:01Você transformou os gritos de socorro dela num instrumento de tortura.
17:04Você matou sua filha de fome.
17:07Bum!
17:07O mundo de mamãe desabou.
17:09Ela ficou sentada ali, olhando pra tira vermelha, piscando no pulso dela.
17:14E finalmente entendeu.
17:15Por 10 anos, toda a luz vermelha não foi porque eu estava mentindo.
17:20Foi porque eu estava com medo.
17:22Com medo da raiva dela.
17:24Com medo de ser mal entendida.
17:26Com medo de comer comida a que eu era alérgica.
17:29Eu estava com dor.
17:31Dor que acelerava meu coração e fazia suor escorrer pelo meu rosto.
17:35Eu estava desesperada.
17:36Desesperada por um abraço.
17:38Por ela me abraçar do jeito que abraçava a Eva.
17:41Cada sinal do meu coração assustado, ela interpretou como prova das minhas mentiras.
17:48Não!
17:48Mamãe gritou de repente.
17:50Ela arranhou a tira.
17:52Tira isso!
17:53Tira isso!
17:53Tá vermelho!
17:54Eu não sou mentirosa!
17:55Eu não sou!
17:56Mas a fivela estava emperrada pela luta violenta dela.
17:59Não saía do lugar.
18:00Eu não consigo tirar!
18:02Estela, pega de volta!
18:03Eu sinto muito!
18:04Foi tudo culpa minha!
18:06Com essa dorzinha, ela já estava desmoronando.
18:10Mãe, eu sofri por 10 anos.
18:13Os policiais precisavam de provas pra acusar.
18:15Então abriram meu diário.
18:15É melhor você parar!
18:17Na frente dos meus pais.
18:1914 de fevereiro.
18:21Ensolarado.
18:21Mamãe colocou a hipo no meu prato.
18:24Eu sou alérgica.
18:25Minha garganta incha.
18:26Não consigo respirar.
18:27Eu disse que não posso comer.
18:28Mas porque eu estava com medo de deixar ela brava, meu coração acelerou.
18:32Luz vermelha.
18:33É melhor você parar.
18:34Mamãe disse que eu era enjoada, mentindo.
18:36Me fez comer o prato todo.
18:39Naquela noite, eu vomitei sangue.
18:41Minha garganta parecia que estava pegando fogo.
18:43Mamãe viu e disse que eu tinha roubado suco de tomate.
18:46Que eu estava fingindo.
18:47Ela me castigou por mais 10 minutos.
18:50A mão de mamãe voou pra boca.
18:52Ela estava tremendo violentamente.
18:54Ela lembrou daquela noite.
18:56O policial virou a página.
18:581º de junho.
18:59Dia das crianças.
19:00A Eva cortou o vestido da mamãe.
19:02A frequência cardíaca da Eva é sempre baixa.
19:05Luz verde.
19:06Eu tentei explicar, mas estava com medo de apanhar.
19:09Então meu coração acelerou.
19:11Luz vermelha.
19:12Papai não aguentou mais.
19:14Esse homem que foi invisível por 10 anos.
19:17Que sempre ficou de fora.
19:19Ele estourou.
19:22Papai não aguentou mais.
19:24Esse homem que foi invisível por 10 anos.
19:27Que sempre ficou de fora.
19:29Ele estourou.
19:30Ele foi pra cima de mamãe e deu um tapa no rosto dela.
19:34Seu monstro.
19:35O que você fez?
19:36Aquela era sua filha?
19:38Você tratou ela como um animal?
19:41Mamãe caiu no chão.
19:43Sangue no canto da boca.
19:45Mas ela não revidou.
19:46Não chorou.
19:48Ela só ficou olhando pro nada resmungando, né?
19:51Não foi minha culpa.
19:52Não foi minha culpa.
19:54Aí os olhos dela pousaram na Eva, encolhida no canto.
19:57É ela.
19:58É a Eva.
20:00A tira da Eva era sempre verde.
20:02A Eva era a boazinha.
20:03Se não fosse aquela luz verde me fazendo confiar nela, eu não teria acreditado tanto na luz vermelha.
20:09É culpa da Eva.
20:10Todos os olhos se viraram pra Eva.
20:13Aquela princesinha que todos protegemos.
20:15O policial se aproximou.
20:17Tirou gentilmente a pulseira da verdade verde do pulso dela.
20:20Tirou uma chave de fenda.
20:22Arrebentou bem ali.
20:24Crack.
20:25A carcaça de plástico e cepito se partiu.
20:27Dentro, tem sensores.
20:29Sem chips.
20:30Sem monitor cardíaco.
20:32Só duas luzinhas de LED baratas e uma pilha de relógio.
20:36O circuito era fixo.
20:38Energia ligada.
20:39Luz verde.
20:40Só isso.
20:41Isso é um brinquedo de dois dólares?
20:43A tira da sua filha mais nova era configurada de fábrica pra ser sempre verde.
20:47Não importa o que ela dissesse, fizesse ou mentisse, ia brilhar verde.
20:52Sua tal criação com base na ciência era uma piada.
20:57Uma piada doente e tendenciosa.
21:01Eu ri.
21:02Ri até chorar.
21:04Parece que fantasmas também podem chorar.
21:07O policial virou a última página do diário.
21:10A voz dela quebrou.
21:12A letra estava uma bagunça, claramente escrita enquanto morria.
21:17Mãe, se eu morrer, a tira vai parar de brilhar vermelho?
21:21Ou se ela ficar verde, você vai me abraçar então?
21:26Eu não estou mentindo.
21:28Minha barriga dói tanto.
21:30Como facas.
21:32Na próxima vida, por favor, não me faça usar a tira.
21:35Por favor.
21:36Mamãe encarou os pedaços de plástico quebrados na mesa.
21:40Aquela luz verde em que ela confiava cegamente.
21:43Um lixo barato.
21:47Mamãe começou a rir.
21:49A voz dela rachando a cada som.
21:52Mas era o riso de alguém quebrando.
21:54Pior do que chorar.
21:56Falso.
21:57Tudo falso.
21:58Eu matei minha filha honesta.
22:01E eu adorei uma mentirosa.
22:02Ela tinha enlouquecido de verdade dessa vez.
22:08Minha morte virou notícia de capa.
22:11Dona Lisa, a fofoqueira do bairro, postou tudo na internet.
22:16Título.
22:17Garota morre de fome por causa de pulseira de ciência falsa.
22:21Ela descreveu meu cadáver em detalhes.
22:24A tira fundida a carne podre.
22:27A internet explodiu.
22:29Monstro.
22:30Assassina.
22:31Ela não merece ser mãe.
22:34Comentários chegaram como uma avalanche.
22:37Alguém expôs mamãe.
22:39Nosso endereço vazou.
22:41Gente jogou tinta vermelha na nossa porta.
22:43Escreveu morte com letras enormes.
22:47Papai foi preso também.
22:49Negligência.
22:50Omissão de socorro.
22:51Ele não estava lá quando eu morri, né?
22:53Então se safou mais leve.
22:55Mas a empresa demitiu ele na hora pra evitar o pesadelo de imagem.
22:59Nossa família faliu.
23:02Venderam a casa, o carro, tudo pra pagar custas judiciais.
23:07Papai não aguentava mais viver com aquela psicopata.
23:11Ele pegou o pouco dinheiro que sobrou e a Eva e sumiu.
23:15A Eva era uma semente ruim, claro.
23:18Mas ainda era sangue do sangue dele.
23:20Antes de irem embora, a Eva tentou pegar a tira verde dela.
23:24Papai pisou nela.
23:25Por que diabos você ia querer esse lixo?
23:27A Eva chorou enquanto ele a arrastava pra longe.
23:31Mamãe saiu sob fiança.
23:32A avaliação psicológica disse que ela tinha têpe de severo e psicose.
23:37Deixaram ela sozinha naquele apartamento alugado.
23:40Aquele que ainda fedia a morte.
23:43O estado mental dela piorou rápido.
23:46Ela começou a falar comigo como se eu ainda estivesse lá.
23:49E se recusou a tirar a tira de luz vermelha.
23:52Pra se punir, ela tinha adicionado um dispositivo de choque.
23:55Um que dava um choque no segundo, em que a luz piscava vermelho.
24:00Ela dizia que os choquinhos eram a única coisa que aliviava a culpa dela.
24:04Ela fazia ter uma mesa cheia de comida.
24:06Depois falava com o ar vazio.
24:08Ela pegava um pedaço de carne.
24:10As mãos dela tremiam.
24:12A tira piscava vermelho.
24:14Ela estava ansiosa.
24:16Ela sorriu, mas os olhos dela estavam vazios.
24:19O coração da mamãe tá acelerado.
24:21Mamãe tá mentindo.
24:22Mentirosos não merecem comida.
24:24Pegou um controle.
24:26Um que ela tinha adaptado pra dar choque na pulseira dela.
24:30E deu choque em si mesma.
24:32Dói.
24:34Dói.
24:35Era isso que a Estela sentia?
24:37Eu sinto muito.
24:39Mamãe começou a reencenar as anotações do meu diário.
24:42Eu não podia comer a época por causa da alergia.
24:45Então ela se forçou a comer comida estragada até vomitar sangue.
24:50Depois engoliu de volta.
24:52Eu fui trancada em isolamento.
24:54Então ela se trancou no meu quarto velho, luzes apagadas.
24:58E se curvou pra minha foto até a testa sangrar.
25:01De novo e de novo.
25:04Sangue no chão.
25:06De madrugada, ela via o brilho vermelho da tira refletido na parede.
25:11Pra ela, pareciam meus olhos ensanguentados observando.
25:15Ela rabiscou com caneta vermelha atrás do meu diário.
25:18Eu sinto muito.
25:19Eu estava errada.
25:20Luz vermelha significa dor.
25:22Luz vermelha significa amor.
25:24Por favor, volta e diz que dói mais uma vez.
25:27Eu vou te salvar.
25:29Eu prometo.
25:30Pena que eu estou morta.
25:32Mortos não podem pedir socorro.
25:35Eventualmente, o estado interveio.
25:38O auto mutilação de mamãe ficou tão extrema, ela quase se matou que a internaram.
25:44Ela acabou numa clínica psiquiátrica.
25:47Ela era a paciente mais estranha de lá.
25:50Ela achou um anel de plástico vermelho e usava no pescoço como uma coleira.
25:55A tira caseira dela.
25:58Se alguém tentasse tirar, ela mordia feito um cachorro raivoso.
26:02Não toca na minha luz.
26:04A Estela está olhando.
26:05Ela vai ficar brava se você tirar.
26:07Ela desenvolveu um reflexo pavloviano.
26:10Enfermeira, Raquel, hora de comer.
26:12Mamãe tocava o pescoço e depois começava a convulsionar, gritando.
26:16Luz vermelha, luz vermelha.
26:18Não me castiga.
26:19Eu como.
26:19Eu como.
26:20Mesmo se a comida estivesse fervendo, ela engolia tudo, queimando o esôfago.
26:26Não cuspia.
26:28Ela estava reencenando meus momentos finais.
26:31Vivendo meu inferno em repetição.
26:34Anos depois, a Eva cresceu.
26:36Sem orientação adequada e com um rastro de infame atrás dela, ela acabou no fundo da sociedade.
26:43Quando o dinheiro acabou, ela lembrou.
26:45Mamãe ainda está naquela clínica.
26:48Ela só apareceu um dia.
26:50Não por amor.
26:51Por dinheiro.
26:59Ei, doida.
27:01Papai morreu.
27:02Me dá seu dinheiro escondido.
27:05Nojenta.
27:06Que nem sua filha a morta.
27:08Se não me der dinheiro, eu arranco seus tubos e mando você se juntar a ela.
27:12Por um momento, os olhos embaçados de mamãe clarearam.
27:15Ela olhou para a Eva.
27:17E de repente lembrou.
27:18Aquela tira.
27:20Aquele brinquedo sempre verde.
27:23Aquela década de engano.
27:25Era você?
27:27A voz de mamãe estava áspera.
27:29Você mentiu.
27:31Você é a luz verde falsa.
27:32Você matou a Estela.
27:35Devolve ela.
27:36Devolve ela.
27:38O último fio de amor materno se transformou em vingança.
27:42Mamãe atacou.
27:44Pegou a Eva pelo pescoço.
27:46Morre.
27:46Você devia ter morrido.
27:48Não ela.
27:49Você.
27:50Socorro.
27:51A Eva se debateu, mas não conseguiu se soltar da mão de uma louca.
27:55Os funcionários correram.
27:57Sedaram mamãe.
27:58Tiraram ela de cima.
27:59A Eva saiu cabaleando do quarto.
28:02Aterrorizada.
28:03Todos são loucos.
28:05Ela correu para a saída.
28:08Um caminhão atropelou ela.
28:10Ela sobreviveu por pouco.
28:13As duas pernas quebradas sem conserto.
28:16Cadeira de rodas para a vida toda.
28:17Uma ruína total.
28:19Enquanto isso, mamãe estava amarrada numa cama, olhando para o teto.
28:23Lágrimas escorrendo.
28:25Nos sonhos dela, ela finalmente me viu.
28:28Eu tinha 10 anos de novo.
28:30Sem tira.
28:31Vestido branco.
28:32Sorrindo.
28:34Mãe.
28:35Ela estendeu a mão para mim, chorando de alegria.
28:38Estela.
28:39Mas as mãos dela soltaram faíscas elétricas.
28:42No segundo em que me tocou, eu peguei fogo.
28:45Virei cinzas.
28:47Não.
28:48Ela acordou gritando.
28:50Frequência cardíaca nas alturas.
28:52Se ela estivesse usando aquela tira, teria ficado vermelho sangue.
28:56Tormento eterno.
28:58Eu fiquei no vazio.
29:00Vendo tudo.
29:02Mamãe na clínica.
29:04A Eva numa cadeira de rodas, pedindo esmola nas ruas.
29:08Papai, bêbado e morto num bueiro.
29:11Eu senti...
29:13Nada.
29:14Sem satisfação.
29:16Só uma calma.
29:18Plana e morta.
29:19Do meu lado estava um cachorro velho.
29:22Buddy.
29:22Meu bichinho de infância.
29:24Mamãe tinha expulsado ele anos atrás.
29:26Ele estava me esperando no limite.
29:29Buddy esfregou a cabeça na minha perna.
29:30Latiu duas vezes.
29:31Como se dissesse...
29:33Vamos embora.
29:34Não olha para trás.
29:37É.
29:38Hora de ir embora.
29:39Essa vida foi amarga demais.
29:41Nada que valesse a pena segurar.
29:44Eu flutuei para o quarto da mamãe uma última vez.
29:48Ela parecia anciã.
29:50Cabelo completamente branco.
29:52Frágil como papel.
29:54Ela sentiu algo.
29:56Os olhos embaçados focaram num ponto no ar.
29:59Bem onde eu estava.
30:01Estela?
30:02É você?
30:03A mão trêmula dela se estendeu para o vazio.
30:06Mamãe destruiu a tira.
30:08Eu não acredito mais nisso.
30:10Volta, por favor.
30:11Eu cozinho para você.
30:13Sem aipo.
30:14Eu compro vestidos novos para você.
30:15Não para a Eva.
30:16Lágrimas escorreram pelo rosto dela.
30:19Eu olhei para as marcas vermelhas no pescoço dela da tira caseira.
30:23Eu suspiro.
30:25Estendi a mão.
30:26Meu dedo frio fantasmal tocou a testa dela.
30:30Dorme, mãe.
30:32Não só não.
30:32Não tem dor.
30:34Uma brisa passou pelo quarto.
30:36O diário velho na mesinha abriu sozinho.
30:40A última página, minhas últimas palavras, olhava para o teto.
30:45Mas embaixo dela, numa letra trêmula, tinha linhas novas.
30:49Escrito por mamãe num momento de lucidez.
30:52Na próxima vida, deixa eu usar a tira.
30:54Deixa eu ser a mentirosa.
30:56Me castiga como quiser.
30:58Só não me deixa.
31:00Eu olhei para essas palavras.
31:03Nada senti.
31:04Tarde demais.
31:06Arrependimento não significa nada para os mortos.
31:10Mãe, eu não te odeio mais.
31:12Mas também não te amo.
31:15Vamos não nos encontrar de novo.
31:17Eu virei as costas.
31:19Buddy abanou o rabo.
31:21Lá longe, uma porta de luz apareceu.
31:24A passagem para o próximo ciclo.
31:28Olhei para o meu pulso.
31:30A pulseira da verdade fantasma ainda lá.
31:33Mesmo em forma de espírito.
31:35Eu peguei ela.
31:37Ela se desfez em poeira estelar.
31:39Me senti leve.
31:41Livre.
31:42Sem luz vermelha.
31:44Sem fome.
31:45Sem mentiras.
31:47Só liberdade.
31:49De manhã, uma enfermeira abriu a porta.
31:52Raquel, hora do remédio.
31:54Sem resposta.
31:55Ela chegou mais perto.
31:57A mão de Raquel segurava o diário rasgado.
31:59Uma lágrima só cristalizada no canto do olho.
32:02No monitor cardíaco, a linha ondulada tinha ficado reta.
32:06Passar pela luz não foi violento.
32:08Sem girar.
32:09Sem caos.
32:11Só calor.
32:12Como mergulhar num riacho de primavera.
32:14Até a dor remanescente na minha alma, as dores fantasmas começaram a sumir.
32:19Buddy esfregou na minha mão.
32:21O pelo dele não era mais translúcido.
32:23Era macio.
32:24Quente.
32:25Real.
32:27Essa era a conexão viva e palpável que eu tanto quis quando criança.
32:30Vamos, garoto.
32:31Peguei a pata dele e caminhei pro brilho.
32:34Atrás de mim, a vida velha sumiu, feito foto desbotada.
32:37A última lágrima de mamãe.
32:39O brilho vermelho da tira.
32:41Sangue nas páginas do diário.
32:43Tudo embaçou.
32:44Dissolveu.
32:45Não olhei pra trás.
32:46Aquele pesadelo de dez anos finalmente.
32:49Acabou de verdade.
32:51Quando abri os olhos de novo, eu era minúscula.
32:54Enrolada em cobertores macios.
32:57Alguém estava controlando.
32:59Uma voz de mulher.
33:00Suave, desafinada, mas cheia de amor.
33:03Os dedos dela tocaram minha bochecha.
33:06O cheiro de gardenias.
33:08Não o cheiro de hospital da minha mãe velha.
33:11Não a distância fria e clínica.
33:13Eu pisquei pra ela.
33:15Ela tinha olhos bondosos.
33:17Um sorriso suave.
33:19Ela me embalou como se eu fosse de vidro.
33:22A graça acordou.
33:23Ela murmurou.
33:24Querido, vem rápido.
33:26Nossa filha acabou de piscar.
33:27Um homem apareceu.
33:29Alto, um pouco desajeitado, mas o rosto dele iluminou quando me viu.
33:33Ele tocou minha mão minúscula com um dedo.
33:36A voz dele era profunda, quente.
33:39Oi, graça.
33:40Eu sou seu pai.
33:42Graça.
33:43Não estela.
33:44Sem peso, sem correntes.
33:46Sem mentiras.
33:47Só a graça costa.
33:49Um nome que significava algo leve.
33:51Algo querido.
33:54Essa casa era pequena.
33:56Mas limpa.
33:57Aconchegante.
33:58Adesivos de desenho nas paredes.
34:01Plantas na varanda.
34:02Luz do sol entrando pelas janelas.
34:04Quente no chão.
34:06Eu percebi rápido.
34:08Essa família não tinha nada a ver com a outra.
34:11Eles nunca me forçavam a nada.
34:14Não tinha pulseiras da verdade.
34:17Eu cresci.
34:18Aprendi a se engatinhar.
34:20A falar.
34:20E quando eu tinha três anos, mamãe fez a hipo refogado.
34:24Os talos verdes no trato me ativaram.
34:27Lembrei de engasgar.
34:29Garganta inchando, vomitando sangue.
34:32Eu dei pra trás.
34:34Tremendo.
34:35Lágrimas vieram sem permissão.
34:38Mamãe largou a espátula na hora.
34:40Se agachou.
34:41Me puxou pro colo.
34:43Graça.
34:43O que foi?
34:44Você não gosta de a hipo?
34:46Eu não conseguia falar.
34:48Só balancei a cabeça.
34:49Chorando.
34:50Papai se ajoelhou também.
34:52Esfregou minhas costas.
34:54Ei, tá tudo bem.
34:56Você não precisa comer.
34:58Pode nos dizer por quê?
34:59Os olhos deles eram pacientes.
35:01Suadas.
35:02Finalmente, eu engasguei.
35:05Dói minha garganta.
35:06Faz eu sangrar.
35:08Eles não disseram a máquina não mente.
35:12Não me acusaram de fingir.
35:14Me levaram pro médico na hora.
35:16Acontece que eu realmente tenho alergia a hipo.
35:20Leve, mas pode piorar com estresse.
35:23Depois disso, a hipo nunca mais apareceu em casa.
35:27Mamãe até botou nas anotações do celular.
35:30Alergias da graça.
35:31Aipo manga.
35:32Ela conferia toda vez que fazia compras.
35:35Eu deitei nos braços dela naquela noite, cheirando gardenias, e percebi.
35:40É assim que é ser acreditada.
35:43Amor não é medido por máquina.
35:45É ouvir.
35:46Mesmo quando essa história parece impossível.
35:49Quando eu tinha quatro anos, a escola fez um exame de saúde.
35:52Coleta de sangue.
35:53Eu vi a agulha e surtei.
35:56Lembrei da tira queimando meu pulso.
35:58Lembrei de passar fome.
36:00Eu gritei e me agarrei na perna do papai.
36:03A professora suspirou.
36:05Graça.
36:06É só uma picadinha.
36:07Todas as outras crianças foram corajosas.
36:10Eu não conseguia parar de tremer.
36:12Não me castiga.
36:13Eu não estou mentindo.
36:15Papai me pegou no colo na hora, me protegendo da enfermeira.
36:19Desculpe.
36:20Ele disse com firmeza.
36:21Ela tem trauma.
36:23Vamos pular isso por enquanto e levá-la a um psicólogo infantil.
36:27Na volta pra casa, papai não me xingou por ser fraca.
36:31Ele só perguntou com jeito.
36:34Graça.
36:35Alguém te machucou antes?
36:37Eu enterrei o rosto no ombro dele.
36:39Lágrimas molhando a camisa.
36:42Mãe.
36:43Tirar.
36:44Luz vermelha.
36:46Eu não conseguia explicar direito.
36:48Mas ele ouviu.
36:50Acenou.
36:51Você passou pelo inferno, não foi?
36:54Tá tudo bem.
36:55Papai tá aqui agora.
36:57Ninguém vai te machucar de novo.
37:00De lá pra frente, eles me levaram a um terapeuta infantil regularmente.
37:04Tepete Severo.
37:05O médico disse.
37:07Meus pais nunca reclamaram.
37:09Nunca me fizeram me sentir um peso.
37:12Eles brincavam de jogos da honestidade comigo.
37:14Onde eu podia falar qualquer coisa, verdade ou mentira.
37:17E eles só ouviam.
37:19Me guiavam com jeito pra verdade.
37:21Eles compraram pulseiras coloridas pra mim.
37:24Mas nunca me forçaram a usar.
37:26Isso são só acessórios.
37:28Graça.
37:28Usa se quiser.
37:29Tira se não quiser.
37:31A gente te ama do mesmo jeito.
37:33Devagar, eu comecei a me curar.
37:35Eu podia dizer.
37:36Eu não gosto disso sem medo.
37:39Eu podia dizer.
37:40Estou com medo.
37:42Eu podia dizer.
37:43Eu quero isso.
37:45Eu não precisava me preocupar com o meu coração acelerado ser prova de mentira.
37:50Comecei a contar histórias da escola pra eles.
37:53Chorava quando não ganhava um brinquedo.
37:55Ria quando recebia elogio.
37:58Finalmente eu era só uma criança.
38:00Uma criança normal e amada.
38:03Quando fiz sete anos, comecei o ensino fundamental.
38:06Tinha uma garota na minha turma.
38:08A Ana Silva.
38:10Ela era idêntica a Eva.
38:12Mesmo os olhos.
38:14Mas o cabelo era mais curto.
38:16E ela era...
38:17Tímida.
38:18Assustada.
38:20A primeira vez que a vi, meu coração apertou.
38:23Lembrei de tudo.
38:24O sorriso de superioridade da Eva.
38:26A luz verde zombando de mim.
38:28Eu dei um passo pra trás instintivamente.
38:31A Ana percebeu.
38:32Ela abaixou a cabeça, a voz quase um sussurro.
38:35Eu sou...
38:36A Ana.
38:37Você quer ser minha amiga?
38:39O tom dela era tão cuidadoso.
38:41Tão desesperado pra agradar.
38:43Que nem eu era.
38:46Eu olhei pro pulso dela.
38:47Ela usava uma pulseira de desenho verde e barata.
38:50Meu estômago embrulhou.
38:52Depois eu descobri.
38:53A mãe da Ana era rígida também.
38:56Pedia honestidade.
38:58Trancava ela no quarto sem comida quando ela errava.
39:01Um dia, a Ana quebrou a caneca da professora sem querer.
39:05Ela estava tremendo, com medo demais de admitir.
39:08Eu vi o rosto dela, olhos vermelhos.
39:11Segurando as lágrimas.
39:13Lembrei de mim naquela mesa, escrevendo...
39:16Eu sou mentirosa mil vezes.
39:19Eu me aproximei.
39:21Peguei a mão dela.
39:22Ana, tá tudo bem.
39:24Acidentes acontecem.
39:25Vamos falar com a professora juntas.
39:27Ela não vai ficar brava.
39:29A Ana olhou pra mim, chocada.
39:30Mas mamãe diz que mentirosos são crianças ruins.
39:35Ser honesto não é nunca errar.
39:37É assumir quando erra.
39:39E mesmo se falar a verdade, não devia ser castigada.
39:43Se a professora gritar, eu te protejo.
39:46Se sua mãe gritar, vem pra minha casa.
39:49Meus pais vão ajudar.
39:51Dei a ela a coragem que eu nunca tive.
39:53Ela confessou.
39:54A professora perdoou ela.
39:56Pediu pra ter mais cuidado da próxima.
39:58Daquele dia em diante, viramos melhores amigas.
40:02Levei a Ana em casa pra conhecer meus pais.
40:05Ela viu como eles eram calorosos.
40:07Como não gritavam.
40:09Não castigavam por bobagem.
40:11Eu disse pra ela.
40:13Você não precisa agradar todo mundo.
40:16Você pode sentir as coisas.
40:18Pode falar as coisas.
40:21Um dia, a mãe da Ana foi buscá-la na escola.
40:25Ela nos viu juntas e a cara dela se contorceu.
40:28Ela puxou a mão da Ana.
40:30Você fez besteira de novo?
40:32A graça tá te encobrindo?
40:34A Ana baixou a cabeça na hora.
40:36Eu dei um passo à frente dela.
40:40Senhora, a Ana não fez nada de errado.
40:43Ela é uma boa criança.
40:45A senhora não devia sempre presumir o pior.
40:47Ela tem medo de você.
40:49A mãe congelou.
40:51Olhou pra mim.
40:53Depois, pros olhos cheios de lágrimas da Ana.
40:56A expressão dela amoleceu.
40:59Naquela noite, ela ligou pra minha mãe.
41:03Agradeceu.
41:03De nada.
41:04Disse que eu tinha aberto os olhos dela.
41:06Com o tempo, a mãe da Ana ficou mais gentil.
41:11Começou a ouvir em vez de gritar.
41:13E a Ana?
41:15Ela floresceu.
41:17Confiante.
41:18Feliz.
41:20Eu a vi rir livremente um dia.
41:22E senti um calor no peito.
41:26Eu não fui salva na minha vida passada.
41:29Eu sofri sozinha no escuro.
41:32Mas dessa vez, eu pude salvar outra pessoa.
41:36Eu pude evitar que outra estela acontecesse.
41:39Talvez esse seja o presente da minha vida passada.
41:43A capacidade de ver a dor.
41:45E de curá-la.
41:49Quando eu tinha 10 anos, meus pais me levaram pra visitar a vovó no interior.
41:53Tinha uma árvore velha no quintal dela.
41:55Que nem a da casa da minha vovó antiga.
41:58Eu sentei debaixo dela, vendo a luz do sol passar pelas folhas.
42:02Buddy cochilou do meu lado.
42:04Aí eu vi ela.
42:06Uma senhora velha.
42:08Cabelo branco, orcunda com uma bengala.
42:11Vestindo uma blusa azul desbotada.
42:13No segundo em que vi o rosto dela, eu congelei.
42:16Ela era idêntica à Raquel.
42:19Minha mãe é antiga.
42:21A vovó me viu também.
42:22Chegou perto devagar.
42:24Os olhos dela estavam embaçados, mas tinha algo familiar neles.
42:28Qual é seu nome, menina?
42:30Graça Costa.
42:32Ela repetiu baixinho.
42:34Graça.
42:35Que nome bonito.
42:37Ela estendeu a mão como se quisesse tocar meu cabelo.
42:39Depois hesitou.
42:41Recuou.
42:42Como se tivesse medo de perturbar algo sagrado.
42:45Minha mãe chegou perto.
42:46A estabilizou.
42:47Mãe, essa é a nossa filha.
42:50Graça.
42:51Então ela era minha vovó nessa vida.
42:54Nos dias seguintes, a vovó me observava constantemente.
42:58A expressão dela era indecifrável.
43:00Um dia, ela me trouxe um hambúrguer de carne.
43:03Graça, come tudo.
43:04Isso era seu preferido.
43:06Eu olhei pra tigela.
43:08Na minha vida passada, eu escrevi com meu último suspiro.
43:11Eu quero comer o hambúrguer da mamãe.
43:14E lá estava a vovó, dizendo essas mesmas palavras.
43:18Lágrimas embaçaram minha visão.
43:21Isso não era mais um desejo distante.
43:23Era real.
43:24Bem na minha frente.
43:26Eu peguei um pedaço.
43:28Dei uma mordida.
43:30Macio.
43:30Doce.
43:31Perfeito.
43:33A vovó sorriu.
43:34Um sorriso cansado e culpado.
43:38Naquela noite, deitada na cama com Buddy encolhido nos meus pés,
43:41pensei nas últimas palavras da Raquel.
43:43Na próxima vida, deixa eu ser a punida.
43:46Só não me deixa.
43:48Pensei na última lágrima dela.
43:50O diário rasgado.
43:52Sinceramente, eu não odiava mais ela.
43:56Odiar alguém é como se trancar no passado.
43:59Ficar mastigando a dor pra sempre.
44:01A felicidade dessa vida já tinha lavado a amargura.
44:05Eu só sentia tristeza.
44:08A vovó ficou um mês.
44:10Depois voltou pra casa.
44:11Antes de ir embora, ela pegou minha mão.
44:14Graça.
44:15Viva bem.
44:16Seja feliz.
44:18A voz dela era suave.
44:19Mas pesada de significado.
44:21Eu acenei.
44:23Você também, vovó?
44:24Eu vi ela ir embora.
44:26E senti...
44:28Nada.
44:29Sem raiva, sem mágoa.
44:31Os rancores da minha vida passada eram como folhas caídas.
44:35Levadas pelo vento.
44:37Eu não era mais a Estela.
44:38A garota presa por uma luz vermelha.
44:41Eu sou Graça Costa.
44:43Cercada de amor.
44:45Livre.
44:47Aos 13 anos, me formei no fundamental.
44:50Passei na melhor escola da cidade.
44:53Meus pais me levaram pra praia comemorar.
44:55Eu fiquei na beira do mar.
44:57Vento no cabelo.
44:58Sal nos lábios.
45:00Estendi os braços, sentindo a liberdade.
45:03Por um momento, eu vi ela.
45:06Minha versão fantasma, flutuando.
45:09Desesperada pra abraçar alguém, mas passando direto.
45:12Graça, no que tá pensando?
45:15Papai me deu um refrigerante.
45:17Eu sorri.
45:18Só que...
45:19Estou agradecida.
45:21Por estar viva.
45:22E por estar com vocês.
45:24Mamãe me abraçou.
45:26Boba, a gente é que tem sorte.
45:29Buddy correu atrás das ondas, latindo feliz.
45:32Eu olhei pros meus pais.
45:33Pro meu cachorro.
45:35Pro meu futuro.
45:36Eu finalmente entendi.
45:38O sofrimento da minha vida passada me ensinou a valorizar essa.
45:42A dor me ensinou o que amor significa de verdade.
45:46Eu não precisava mais provar que não era mentirosa.
45:49Não precisava temer luzes vermelhas.
45:51Eu podia rir.
45:53Chorar.
45:54Falar livremente.
45:55Eu tinha pais que me amavam.
45:57Uma melhor amiga.
45:59Um corpo saudável.
46:01Um futuro brilhante.
46:03Essa era a vida que eu morri desejando.
46:06Naquela noite, eu escrevi no meu diário.
46:09Não as confissões sangrentas da vida passada.
46:12Esse era cheio de felicidade.
46:14Crescimento.
46:16Amor.
46:17Eu escrevi.
46:19Hoje eu vi o mar.
46:21É enorme.
46:23Azul.
46:25Livre.
46:26Pensei na minha versão passada.
46:28Aquela menininha trancada num quarto, desesperada por ser amada.
46:33Ela nunca acreditaria que eu poderia ser tão feliz.
46:36Mamãe e papai me amam.
46:38Eles me ensinaram honestidade e coragem.
46:42A Ana é minha melhor amiga agora.
46:44Ela é confiante e brilhante.
46:46A vovó tá saudável.
46:48Ela me liga sempre.
46:50Buddy ainda é um bobão.
46:51Sempre que esfregando a cabeça na minha mão.
46:54Eu não odeio mais ninguém.
46:57Não fico presa no passado.
46:59Aqueles momentos dolorosos são como pegadas na areia.
47:03Levadas pelas ondas.
47:05Mas eles me ensinaram a valorizar cada passo à frente.
47:09Eu sei que minha mãe antiga, irmã e pai tiveram o que mereciam.
47:14E eu finalmente me libertei.
47:16Encontrei liberdade de verdade.
47:19Eu não quero vê-los de novo.
47:21Não quero reviver aquela vida.
47:24Só quero ser graça costa.
47:27Simples.
47:28Feliz.
47:30Amada.
47:32O mar era lindo.
47:34A vida era linda.
47:36Fechei meu diário.
47:38Olhei pela janela do átomo.
47:40O luar brilhava na água como mil estrelas.
47:44A respiração do Buddy era suave e constante do meu lado.
47:48Eu sorri.
47:50Nessa vida,
47:52eu finalmente me tornei quem eu queria ser.
47:55Sem luzes vermelhas.
47:56Sem fome.
47:58Sem mentiras.
47:59Só amor.
48:01Liberdade.
48:03Felicidade.
48:05E as cicatrizes do Abmel, pastou.
48:07Viraram medalhas de sobrevivência.
48:10Lembretes de que não importa quanta escuridão você enfrente.
48:13Se você não desistir da luz,
48:16vai encontrar o caminho pro calor.
48:18Pra liberdade.
48:20O caminho pela frente é longo.
48:22Mas vou caminhar com coragem.
48:25Com alegria.
48:27Rumo a algo ainda mais brilhante.
48:43Irmãos, por que estamos aqui de novo?
48:46Ué, eu vim trazer um presente pro meu sobrinho.
48:48Mas eu ainda não faço ideia se é menino ou menina.
48:51O que vai dar de presente?
48:51Foi por isso que eu preparei várias opções.
48:59Irmão.
49:00Irmão.
49:00Laura.
49:01O que você vê de tão bom no Arthur?
49:03Ele nem te acon...
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