00:06A Gazeta veio para o Centro de Vitória para conhecer um circuito histórico que simboliza a luta e a resistência
00:13do povo preto aqui no Espírito Santo.
00:16Quem nos acompanha nesse percurso é o pesquisador e historiador Marcos Vinícius Santana.
00:24Nós estamos aqui na Igreja do Rosário dos Pretos, fundada no século XVIII, e surgiu com a função de ser
00:29um local para que os negros pudessem exercer sua fé católica.
00:33Inicialmente Nossa Senhora do Rosário, depois São Beredito, por causa da identificação com a cor.
00:38Isso aqui inicialmente era uma igreja, obviamente, e depois isso extrapolou, se tornou como se fosse de fato um território
00:44negro da cidade.
00:46Nós temos aqui dois símbolos disso, a Casa de Leilão, que era um local onde a igreja vendia e leiloava
00:52tudo que ela recebia de doação,
00:54e esse dinheiro era revertido em compras de cartas de alforria, e o cemitério.
00:58Inicialmente as pessoas eram enterradas em igrejas e os negros não tinham local para ser enterrados.
01:02E aqui surgiu o Cemitério do Rosário dos Pretos, para que desse um enterro digno às pessoas de cor da
01:08cidade.
01:16A nossa próxima parada é a Escadaria Maria Ortiz.
01:20Mas você sabia que até 1899 ela tinha outro nome?
01:25Escadaria Maria Ortiz, antes Ladeira do Pelourinho, o seu local que dava acesso onde ficava o Pelourinho da cidade.
01:34O Pelourinho era uma estaca de madeira ou de pedra e onde se castigava escravizados.
01:40Ele estava localizado no alto dessa escadaria porque era a região central da cidade, cercado de igrejas,
01:46e principalmente as pessoas vinham para cá para assistir os escravizados serem castigados.
01:52Um local que era para ser de memória, hoje é de apagamento, porque não existe menção nenhuma de que aqui
01:58existiu o Pelourinho da cidade.
02:05A terceira parada pode passar despercebida para alguns,
02:08mas quem olha com pouco mais de atenção encontra a estátua de uma mulher cabisbaixa, em frente ao Palácio Anchieta.
02:15Mas você sabe qual é a história dessa mulher?
02:18Dona Domingas, uma mulher negra que andava pelas ruas da cidade, isso no século XX, catando papel e madeira.
02:25Ela revendia para o seu sustento o que sobrava.
02:27Ela ofertava aos pavonianos para se rezar missas em intenções escravizadas que tinham partido.
02:33Na década de 70, a prefeitura inaugurou esse monumento e hoje ele é um símbolo, um descaso com a história
02:39do povo preto capixaba.
02:41Não tem nenhuma menção de quem foi Dona Domingas.
02:44Essa mulher que entrou para a história da cidade apenas com suas andanças em silêncio,
02:49se tornando um dos tipos populares de vitória.
02:55O nosso percurso segue em direção a um lugar que não poderia ficar de fora deste circuito.
03:01Estamos falando do Museu Capixaba do Negro, o MUCANE,
03:04um espaço de reconhecimento e valorização da cultura preta aqui no Estado.
03:10Um local que pudesse centralizar tudo que fosse ligado ao povo preto do Espírito Santo
03:14já era algo que era idealizado pelo movimento negro capixaba desde a década de 80.
03:18Esse sonho veio se materializar na década de 90, aqui com o Museu Capixaba do Negro.
03:25Aqui acontecem exposições, seminários, palestras, tudo que for ligado à cultura preta do Espírito Santo
03:32e carrega o nome de Maria Verônica da Paz, mulher negra, militante também do movimento negro
03:38e que foi uma das grandes idealizadoras desse espaço, que é o sonho, a realização de um sonho do povo
03:43preto capixaba.
03:48A nossa rota se encerra aqui na Casa Iemanjá, na Vila Rubim.
03:53Este local é conhecido pelo comércio religioso, com venda de artigos para rituais e celebrações de religiões de matriz africana,
04:02fortalecendo a prática de umbanda e candomblé que durante décadas foi proibida.
04:09Toda essa região conhecida como Vila Rubim era anteriormente a cidade de Palha,
04:14colocada como uma das primeiras favelas da cidade e berço de cultura negra.
04:18Esse local era um mercado, tornou-se um mercado na década de 40, mas ainda algo informal, com diversas bancas
04:24espalhadas.
04:25Institucionalizado como o mercado, o mesmo mercado, a Vila Rubim, acontece na década de 70, virada da década de 60
04:31para a década de 70
04:32e um dos momentos emblemáticos da história desse local é o incêndio que acontece em 1994.
04:38No meio daquelas labaredas, das chamas, uma imagem de Iemanjá apareceu intacta,
04:44o que representou muito, o que tornou-se muito significativo para o povo de matriz africana,
04:49porque Iemanjá é a deusa das águas e principalmente foi quem fertilizou, ajudou a fertilizar a terra
04:55para que ela fosse ocupada pelos humanos.
04:57A imagem ainda está aqui e segue como simbologia da casa de Iemanjá,
05:01um dos principais locais para se encontrar artigos de religiões de matriz africanas.
05:14Amém.
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