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  • há 5 semanas
A Gazeta fez expedição por quatro municípios cortados pelo Rio Doce no ES, para mostrar como comunidades tentam se reerguer

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Transcrição
00:00Eu vi a cena mais triste de todos os anos que eu passei na beira do Rio Doce, eu vim
00:07naquele dia.
00:08Uma barragem cheia de rejeitos de mineração se rompeu hoje à tarde na região central de Minas Gerais
00:14e cobriu de lama parte de um distrito da cidade de Mariana.
00:25Coração desesperado, o coração batia muito forte.
00:31Foi um sentimento de perca, de impotência e muito choro.
00:44Gente, essa lama toda vai atingir sim o Espírito Santo.
00:50Porque a gente viu os nossos sonhos descer junto com a lama.
00:54A lama da barragem de Taçamato chegou ao estado no final da tarde de ontem
00:58e agora está seguindo para o município de Colatina.
01:18Até hoje parece um sonho que a gente vai acordar e tudo isso passou.
01:26Mas infelizmente são 10 anos.
01:59A gente plantava, tinha um café, que não era grandes coisas, mas tinha toda a fruta, né?
02:04Plantava, tinha mandioca, tinha batata, tinha abóbora, né?
02:08A gente plantava taioba também.
02:11Muita coisa.
02:11Não colheu mais nada, porque matou mesmo.
02:14Matou, não se produzia mais nada.
02:16Não tinha como produzir mais nada.
02:19Antes do rompimento, era uma vida sustentável, porque o rio, ele nos dava todo sustento e condições, né?
02:29Tanto na parte da agricultura, quanto na parte da pesca de subsistência.
02:34O Heródoto diz que o Nilo, que o Egito é um presente do Nilo e eu diria que Linhares é
02:42um presente do Rio Doce.
02:44E depois do rompimento, tudo isso se perdeu.
02:48Quando eu soube romper uma barragem, foi através da televisão, né?
02:53Jornal, aqueles flashes que dava, né?
02:56Ao vivo.
02:58E assim, era algo muito desconhecido e no primeiro momento, uns dois ou três dias, a gente não tinha ideia
03:04de que chegaria aqui pra nós.
03:06Ah, lá em Minas Gerais.
03:09Uma coisa que destruiu, que matou pessoas, mas é lá.
03:14A gente não tinha essa noção que ia atingir o Rio Doce, que ia chegar aqui.
03:18A previsão é que essa lama chegue ao Espírito Santo a partir da tarde de amanhã.
03:22Três cidades que ficam na bacia do Rio Doce já estão em alerta.
03:26A expectativa é que o nível do rio suba mais de um metro e meio.
03:29Mas a região já vive uma das piores secas da história.
03:32O rio está cheio de bancos de areia.
03:34Por isso, já está difícil captar a água e vai ficar ainda mais complicado.
03:38Eu cheguei em casa e a minha filha falou pra mim que tinha acontecido aquilo que ela tinha visto, alguma
03:43coisa comentar na escola.
03:45Eu assim, eu não acreditei porque era uma coisa muito difícil.
03:48Aí quando nós ligamos a TV no jornalzinho das 7 horas da Espírito Santo, a gente viu.
03:54Ficamos apavorados.
03:55A gente começa o jornal de hoje com um alerta de enchente de lama em Colatina, Baixo Guandu e Linhares.
04:02É que a lama provocada pelo rompimento das barragens da Samarco e Mariana já chegou ao Rio Doce, em Minas.
04:09O Linhares estava aguardando, as pessoas estavam em cima da ponte esperando essa lama chegar.
04:14Isso vai contaminar o nosso rio, vai contaminar a nossa água, vai subir para a lagoa, não vai.
04:19Eu acho que a primeira sensação que me tomou foi da dúvida.
04:24A gente não tinha como imaginar como seria essa vida pós o rompimento da barragem.
04:30Nós ficamos muito tempo esperando até a lama chegar na fosa.
04:35Lugar cheio de ilhas e manguezais que fica na fosa do Rio Doce, em Regência, distrito de Linhares, litoral do
04:41Espírito Santo.
04:42Nós orientamos que as pessoas não tenham contato com a água, até que nós tenhamos certeza que essa água está
04:49própria para ter contato direto.
04:55Eu peguei uma equipe de artesãs, saímos aqui na beira desse rio procurando famílias que tinham na beira do rio,
05:04para a gente tentar orientar para essas pessoas saírem, que a Defesa Civil já estava pedindo isso.
05:09E a gente ajudou nessa parte também.
05:13Você via os peixes pulando para a areia quente, saindo d'água, literalmente pulando para a areia quente.
05:23Porque o habitat dele não estava mais respirado para ele.
05:29A gente na beira do rio via muito peixe, os peixes que eram nossos alimentos, o peixe que era o
05:38nosso sustento, o nosso ganho, foi-se embora.
05:43Então, que nome de peixe morto aqui?
05:45De cascudo preto, mandi, cascudo barata, cascudo laviola, tudo morto.
05:51Olha o tamanho desse cascudo laviola, olha gente.
05:54Ali, começou a cair a ficha.
05:57Se para o peixe não dá para habitar nesse rio, o que nós vamos fazer?
06:03Aí a gente desce, a gente vê tonelada de peixe morto e o urubu não chega.
06:09Aí você para para analisar a sabedoria da natureza.
06:13O urubu faltava para entrar na água para pegar o peixe vivo e ali tinha toneladas.
06:18E ele não beliscou o peixe.
06:20É um mau cheiro, insuportável.
06:24É móveis e muitos animais mortos que a gente viu descer nesse rio.
06:31Então foi um cenário de destruição jamais visto.
06:36Muitas pessoas desmaiaram, teve que ser socorrida para o pronto-socorro.
06:43Foi uma tragédia tão, mas tão, tão grande, de uma proporção tão grande, que foi assustador.
06:52Quando passa o caminhão de água, começa uma correria.
06:59Cenas repete em lugares diferentes.
07:05Desde que a lama das barragens chegou à Apulatina, a água potável, limpa, virou um bem precioso e disputado na
07:13cidade.
07:16A parte que mais me marcou da chegada dos rejeitos foi quando eu vi as primeiras ondas quebrando vermelhas.
07:24Então a gente estava acostumado muito com aquela cor do mar, azul, verde.
07:29Então a primeira onda vermelha que eu vi quebrando, uma onda muito longa quebrando vermelha, aquilo ali me afetou de
07:36forma muito intensa.
07:38Então a minha sensação inicial era de aceitação.
07:42Eu aceitei a presença dos rejeitos na onda, porque eu já sabia que o ser humano pouco poderia fazer para
07:50poder mudar essa realidade.
08:01Nós perdemos o que nós tínhamos de mais belo, porque eu falo belo, porque quando você olhava para o rio,
08:10você via a beleza do rio.
08:12E se você for lá no rio olhar, você vai ver, você vai ver nada bonito, você vai dar tristeza
08:17de ver.
08:28Eu tenho uma neta filha que se chama Yasmin.
08:31Eu cuido dela desde bebê.
08:35E a gente sonhava porque desde bebezinha, pequenininha, ela dizia que ela quer ser médica.
08:40Mamãe, eu quero ser médica.
08:42E esse sonho ela tem até hoje.
08:45Só que hoje nós estamos, assim, é muito difícil nós realizarmos esse sonho.
08:50Porque lá atrás, em 2015, enquanto a gente trabalhava para guardar reservas para que esse sonho viesse a ser realizado,
09:00ele desceu junto com a lama.
09:01Nós ficamos com terrenos improdutivos, a produção acabou, muitas árvores morreram, árvores frutíferas.
09:10E, assim, nós trabalhamos com a cultura do cacau.
09:14O cacau, ele ficou completamente improdutivo, porque o rejeito, ele esquenta os pés do cacau.
09:21O cacau, ele chega a dar até uns frutos, mas eles abortam, porque não suporta o calor.
09:28Em regência, litoral de Linhares, não tem tempo ruim.
09:31Se a maré está baixa, o mar está para peixe.
09:34Se está alta, está para surf.
09:36Aos poucos, a praia ficou conhecida.
09:38Hoje é visitada por surfistas de todo o Brasil.
09:41O surf de regência estava vivenciando um processo de ascensão da importância dessa onda no cenário regional, nacional e internacional.
09:51A comunidade de regência está se tornando uma vila surf, não tem como.
09:56Isso aí é inevitável.
09:57Muita gente pode até discordar hoje, mas daqui a uns anos isso vai ficar bem claro.
10:03O rompimento da barragem, ele provoca um dano estrutural num processo orgânico e autônomo
10:10que essa categoria, que esse esporte, que esse modo de vida vinha produzindo ao longo dos últimos 10 anos antes
10:19do rompimento da barragem.
10:23A lama contaminada que vazou da mineradora Samarco em Minas avança pelo oceano, destruindo a vida no caminho.
10:30A lama mudou a cor da água do rio Doce, na praia de regência, onde o rio deságua no mar.
10:38Esse impacto na comunidade do surf teve diversas intensidades.
10:42Teve gente que não parou de surfar, mas teve gente que diminuiu drasticamente o tempo dentro da água.
10:50Teve gente que foi proibido de surfar pelas famílias.
10:53Muitas crianças nativas foram proibidas de surfar.
10:58Teve gente que tinha se estabelecido em regência como surfista,
11:01que mudou daqui, foi embora daqui buscando outros lugares pra poder reproduzir esse modo de vida,
11:09essa cultura do surf que nos caracteriza.
11:12Eu ter de explicar ao meu filho que ele não vai poder surfar ali, porque eu não vou...
11:20Desculpa, cara.
11:22É porque a gente pega um sonho de vida, cara.
11:33Sou nascido e criado aqui, toda a vida vivi da pesca.
11:37Criei meus filhos todos pescando, entendeu?
11:41Tenho orgulho de falar isso.
11:43Dei a inducação a eles que eu pude dar, tirando o dinheiro da pesca.
11:47Eu tenho vergonha, eu não vou por isso.
11:49Tem muitos que vão, mas eu não vou.
11:53Porque se eu for pra lá, eu tô dando exemplo aos outros pescadores a pescar.
11:56Eu como presidente de uma associação.
11:58E nem compro o peixe do pescador.
12:00Porque se eu comprar, eu tô insinuando ele a pescar cada vez mais.
12:03Nesta vila, 68 famílias vivem da pesca na praia e no Rio Doce.
12:08Mas com a lama, os peixes sumiram.
12:10A gente vive disso, né, do peixe, né?
12:12Porque o trabalho dele é esse, né?
12:13A gente vai fazer o quê, né?
12:15Se não tiver peixe.
12:18Desde 2017, eu não pesco.
12:20O meu barco eu até tirei da água porque tava apodrecendo, porque tá proibido.
12:24De Barra do Riacho até Begredo de Linhares, 20 metros de profundidade, a gente não pode pescar.
12:29Então, ali, e não pode.
12:32E a gente acha até certo não poder pescar,
12:36porque eu sou conselheiro, conselho de segurança alimentar e nutricional, estadual e nacional.
12:42E a gente se preocupa que a limitação é essa que nós estamos colocando na mesa da nossa população brasileira.
12:49As pessoas chegavam aqui na feira, aqui embaixo de um ano, a primeira coisa que eu se pergunto.
12:53É irrigado o carro do Rio Doce?
12:56Esse peixe é do Rio Doce?
12:59Os peixes que estavam no frize, quando a lama chegou, ninguém vendeu.
13:05Porque ninguém quis comprar.
13:07Porque achava que era peixe morto, já na tragédia.
13:13E aí, a gente começou a passar vergonha, humilhação, por estar tentando vender um produto contaminado.
13:26Alguns barcos, se você puder ver aqui a quantidade de barcos que nós temos aí parado,
13:30porque só sai para pescar, embarcação que dá condições de ultrapassar onde que está proibido
13:38e principalmente onde a gente entende que não está contaminado.
13:41Porque é uma responsabilidade nossa também, de saber se ali está contaminado, por que nós iremos pescar ali.
13:48Nossa água aqui não tem para beber, não tem para pescar, não tem para comer, nada.
13:55Nós estamos na mão de Deus, Deus.
13:57A gente viu que os impactos e as injustiças permeiam aspectos sociais, econômicos, culturais
14:04e toda a escala de que a sociedade sofreu.
14:07Porque não é só eu deixei de ter o meu alimento e a minha segurança alimentar enquanto um pescador.
14:13Nós, enquanto sociedade, também passamos por processos de estarmos nos alimentando de um pescado
14:19que não sabemos qual é a situação dele.
14:21O pescador que foi mais atingido, ele está revoltado, porque hoje ele não pode pescar a peça escondida.
14:28Ele não tem uma análise concreta do peixe para dizer que o pescador pode pescar, comer e vender.
14:34Como é que o pescador vai viver sem ter essa análise concreta do peixe?
14:39Ele não dá essa análise concreta do peixe, nem do peixe, nem da água.
14:43Nem só o pescador está sofrendo, não.
14:45Negociante, dono de bar, dono de supermercado, dono de restaurante, dono de pousada.
14:52Tudo está sofrendo com isso.
14:54Existem já estudos que demonstram situações de contaminação desse pescado.
14:59E a Anvisa, os órgãos competentes em termos de Ministério da Saúde e secretarias estaduais
15:06não estão divulgando o real resultado dessas pesquisas para a sociedade
15:10e divulgando o real local do mercado desse pescado ao longo do Espírito Santo.
15:25Então a gente viu uma diminuição da diversidade e um aumento de abundância.
15:30São aquelas espécies oportunistas para aquele momento de impacto.
15:34Então cresceram muito, né?
15:35E isso é muito ruim.
15:37Quanto mais diversificado for, melhor, né?
15:41Você tem uma riqueza maior.
15:42Nas larvas de peixes, desde o início, a gente ainda continua vendo,
15:46a gente tem alterações morfológicas com deformidades na região da cabeça dessas larvas.
15:52Alterações, vamos dizer assim, nas barriguinhas dessas larvas,
15:57que é uma destruição do trato digestório dessas larvas, rompimento mesmo das larvas.
16:03Diminuição de eclosão de ovos.
16:06E isso, claro, vai afetar na comunidade da Ictiofau.
16:10Tem uma situação de que essa lama, né?
16:12O mar, ele está todo conectado, né?
16:14A água marinha existe uma conectividade muito forte.
16:17Os fluxos de águas, né?
16:19São contínuos.
16:20E isso fez com que esse sedimento se espalhasse, chegasse a outras localidades.
16:25A região afetada, o local onde essa pluma chegou, já é bem conhecido, né?
16:31É considerado, até nas proximidades de Vitória e até nas proximidades do Parque Marinho dos Abólios, né?
16:38No sul da Bahia.
16:39E isso gera um problema muito grande, porque...
16:42Como que você comprova quem de fato pescava nessas áreas, né?
16:46E pescador de que localidades pescavam nessas áreas?
16:50Então cria-se um ambiente de muita especulação, muita dificuldade de buscar essas respostas, né?
16:58Fim de tarde e algumas já começam a chegar.
17:02Essa aí saiu da água, andou um pedaço na areia, mas não colocou os ovos.
17:07O que ninguém nunca imaginou é que um dia o mar aqui estaria com lama de rejeito de minério.
17:13Todas as fêmeas, a maioria das fêmeas que iam desovar naquela temporada, ou já tinham desovado,
17:18estavam aqui na frente ainda, quando a lama chegou.
17:22E o nosso medo, o nosso desespero foi grande, porque a gente não sabia o que fazer.
17:28Porque além das tartarugas estar aqui, tinham os ovos na praia incubando.
17:33Os filhotes, além de trazer um risco para os ovos, tinha também a questão.
17:38Os filhotes iam nascer e iam para esse mar contaminado.
17:41Por isso, quando souberam que a lama estava a caminho, os pesquisadores tiraram alguns ovos da foz do rio.
17:46Que era assim. E ficou assim.
17:48Os ovos foram enterrados em outro ponto da praia.
17:52É uma tentativa, mas não uma garantia, de que vão escapar desse desastre ambiental.
17:56Em organismos dos peixes, a gente ainda tem esse efeito de bioacumulação de metais.
18:04Não se voltou ao que era antes.
18:06Porque a qualidade ambiental ainda não é o que era antes.
18:10Então isso a gente continua vendo.
18:11Tem alguns elementos principais que a gente vê essas alterações.
18:15Cádio, ferro, alumínio, crumo.
18:19Então são elementos que a gente vê bastante alteração nas concentrações.
18:24E isso também refletiu até em níveis tróficos superiores.
18:27Como tartarugas, golfinhos e aves.
18:31Como eu estou tendo essa animagem de ciclo de vida muito longo,
18:34então é uma coisa que a gente só vai saber daqui 25, 30 anos,
18:38quando aquela turma que nasceu durante esse período do maior impacto,
18:43voltar ou não voltar para desovar.
18:59A gente bebe e consome água de poço.
19:02Essa é outra polêmica.
19:03A gente não tem outro local para fazer poço, para captar água.
19:07Então a gente bebe e a gente tem certeza que a nossa água é contaminada.
19:13Não só a minha, mas de toda a comunidade.
19:15Tem pessoas que gastam seis galões de água por semana.
19:19Eu gasto dois porque a minha família é pequenininha.
19:22Mas a gente também espera um dia esse ressarcimento.
19:26Por quê?
19:27São dez anos comprando água que antes nós tínhamos com abundância.
19:32Nós buscamos durante esses dez anos apoio,
19:35como eu disse antes da extinta renova.
19:37Buscamos apoio de políticas públicas
19:41e nós não conseguimos sobre captações diferentes de água.
19:45Infelizmente.
19:46Nós usamos a água da torneira para cozinhar,
19:51nós usamos a água do chuveiro para tomar banho,
19:54nós escovamos os dentes.
19:56Porque eu não tenho condições de comprar água mineral para cozinhar,
20:02para escovar dentes.
20:04Isso já traz para mim uma incerteza do que vai ser,
20:13até que ponto está afetando a minha saúde.
20:18Como o Ilheiros, toda vez que o nível do rio sobe,
20:23que ele enche, que vem as enchentes,
20:26ele transborda e passa nas ilhas.
20:29Antes do rompimento, ele deixava matéria orgânica,
20:33que era bom para o desenvolvimento da agricultura.
20:37Hoje, quando ele vem, ele traz rejeito.
20:40E esse rejeito vai cada vez mais se acumulando.
20:43Hoje, gente, nós convivemos hoje com um rio completamente morto.
20:49A gente não se conforma.
20:51Na verdade, a gente não se conforma com a situação que ainda há no Rio Doce.
20:58Ainda vai levar muitos anos ainda
21:00para ser um verdadeiro Rio Doce, peixe saudável.
21:04Porque o peixe hoje não é saudável.
21:08O presidente anunciou o pagamento para agricultores familiares e pescadores
21:13de 11 cidades capixabas.
21:15O anúncio da entrega desse cartão simbólico para vocês hoje
21:19é o começo de uma reparação.
21:22O acordo para transferência de renda é de 3 bilhões e 750 milhões de reais.
21:29Durante três anos, os beneficiários vão receber um salário mínimo e meio por mês.
21:34Depois, eles passam a ganhar um salário mínimo mensal por mais um ano.
21:39Infelizmente, quando se diz respeito à indenização,
21:43foi muito pouco o valor destinado individualmente para cada um.
21:49Por exemplo, o agricultor que comprove o seu vínculo com a agricultura,
21:54ele recebeu o direito de R$ 95 mil, independente da sua perca.
21:59O pescador, também R$ 95 mil, independente da sua perca.
22:05R$ 95 mil não dá para iniciar, não dá para retomar as atividades agropecuárias, econômicas,
22:15de uma pessoa que perdeu tudo.
22:17Fomos muito impactados, muito impactados, porque a calha do Rio Doce tem muitos artesãos,
22:24muito que dependia do rio, da matéria-prima do Rio Doce.
22:27E a gente nunca teve o auxílio emergencial e até hoje a gente não tem nem esperança
22:36que um dia vamos ser reconhecidos nesse auxílio financeiro que tanto a gente depende.
22:41As pessoas começam a requerer os seus direitos de uma forma mais incisiva,
22:46chegada de diversos advogados, querendo ter um movimento oportunístico muitas vezes
22:52para estar buscando indenizações das pessoas, quem é atingido, quem não é atingido,
22:58quem é pescador, quem não é pescador.
23:00Então isso acabou acentuando conflitos dentro das comunidades,
23:04entre comunidades de diferentes municípios ao longo da costa,
23:07nessa região que consideramos afetada, consideramos a região norte do Espírito Santo.
23:13A gente tinha uma comunidade que, com as suas dificuldades, tinha unidade.
23:19Não existe mais unidade nas comunidades.
23:23Você vê comunidades igual, com um tal de degredo, regência,
23:28povoação, regência e povoação, várias associações.
23:31Você tem representatividade de tudo, segmentou tudo, pulverizou tudo.
23:38E isso era fruto de uma necessidade para ter direito aos recursos dos editais da Renova.
23:47Ou você se organizava setorialmente, ou você não tinha acesso aos editais.
23:54E fazendo com que todos os segmentos se organizassem,
23:59a gente acabou criando uma divisão.
24:01As pessoas não falam mais de unidade.
24:04Esse processo de judicialização acabou permeando vários anos, ao longo desses dez anos,
24:09e sempre marcado por essa negligência institucional, muitas vezes,
24:13de participação social e de inclusão da pesca dentro dos processos.
24:17Isso acabou gerando processos psicossociais muito fortes,
24:21processos sociais, econômicos, ambientais, de injustiça, procedimental,
24:27de não inclusão na política pública e questões de saúde também.
24:31Nós temos uma atuação muito forte em, primeiro, a recuperação ambiental da bacia.
24:39O nosso papel é no Espírito Santo, mas nós temos que ter um olhar sobre toda a bacia.
24:43Nós fomos visitar todos os municípios, praticamente os 33.
24:51Conhecemos com profundidade as demandas de cada um, que isso é muito importante.
25:01Hoje eu sou costureira.
25:06Eu tenho o sítio onde eu tiro boa parte da minha renda, que eu crio galinha,
25:14tem a horta, tem as mandiocas, tem os porcos.
25:19Então, boa parte da minha renda hoje vem da agricultura familiar.
25:22E o complemento vem na costura, que, inclusive, eu comprei minhas maquinazinhas
25:27com o primeiro dinheiro que eu peguei.
25:30Agora, hoje eu troquei a minha vida, que era da beira do Rio Doce,
25:36pela vida de cuidar do ser humano, cuidar da vida espiritual, né?
25:42Conhecer a graça de Deus, levar a palavra àquele que necessita, né?
25:47Aqueles que são enfermos, doentes, né?
25:50Mental, físico, espiritual.
25:55Hoje, a minha ocupação é no Evangelho.
25:59Eu vejo muita gente falar, durante esses dez anos, de preparação integral.
26:06Isso nunca vai acontecer.
26:09Porque nós não perdemos só dinheiro.
26:13Os anos que eu perdi
26:16de não poder brincar com o meu neto na areia do Rio,
26:19que a gente fazia todos os dias,
26:21dinheiro nenhum vai pagar.
26:23Os meus outros netos que nasceram depois disso,
26:25que nem tiveram conhecimento, não conheceram isso,
26:29dinheiro nenhum vai pagar.
26:33Não adianta falar que aquilo lá foi um acidente, não foi,
26:37porque eles tinham consciência, e tem,
26:39que as barragens podem pocar, né?
26:42Logo em seguida foi outra,
26:44tem outras lá em situação difícil,
26:46que é assim, todos os rejeitos vão caindo ali.
26:49Foi muito triste, foi emocionado, a gente fica muito ruim.
26:51Nós somos abandonados.
26:53Eu falo isso com emoção.
26:55Porque nós somos abandonados pelo poder público,
26:59nós somos abandonados pelos direitos humanos,
27:01nós somos abandonados pelas empresas.
27:04Os problemas e os impactos ainda persistem.
27:08A lama e os seus efeitos continuam presentes.
27:12A bioacumulação de contaminantes
27:15continuam no pescado, na biodiversidade.
27:18Então, é muito difícil ver uma condição diferente
27:23quando o problema persiste.
27:25Nós estamos muito otimistas.
27:27Se os recursos, de fato, forem aplicados,
27:30como é a orientação do governo,
27:32nós somos muito otimistas
27:34que nós vamos resolver o problema de saneamento básico,
27:37vamos resolver o problema de reflorestamento,
27:41vamos ter uma estrutura de monitoramento
27:44e acompanhamento muito melhor,
27:47vamos fazer com que os arranjos produtivos
27:50ali na bacia e no entorno melhorem,
27:53com isso melhorem a qualidade de vida.
27:56Se tudo que der previsto lá for implementado realmente,
28:00com certeza, a gente vai ter uma melhora da qualidade ambiental.
28:04Eu acho que isso é uma grande oportunidade.
28:07Dado que você não vai quiser revitalizar o rio como um todo,
28:11como era antes, de impactos, enfim.
28:15Mas trazer uma qualidade de vida,
28:17tanto ambiental quanto social, melhor,
28:20eu acredito que sim.
28:22Quando mais indignada eu fico,
28:25mais forte eu me sinto.
28:28Por quê?
28:29Porque apesar de tudo que eu atravesso,
28:32tem pessoas que eu ainda consigo ajudar.
28:35Tem pessoas que estão na situação muito mais difícil do que eu.
28:38Porque eu sei que eu não vou mudar o mundo.
28:40Mas eu reconheço que eu fiz parte de uma luta
28:43que mudou a história da minha comunidade.
28:45Música
28:50Música
28:50Amém.
29:20Amém.
29:52Amém.
30:20Amém.
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