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  • há 2 meses
Entrevista com a viúva do bombeiro que morreu em resgate de cachorro no ES

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Transcrição
00:04Ele tinha muito amor aquilo ali, eu vou te falar, ele morreu fazendo uma das coisas que ele mais amava
00:10fazer.
00:14Foi um dia assim que ele saiu muito lento.
00:17De manhã na hora que eu levava minha filha na escola, ia para a academia,
00:22eu sempre dava um beijinho nele, ainda mais imaginando que ele sairia no horário que ele sempre saía.
00:27Aí ele falou assim, não, hoje eu não vou cedo, vou sair daqui umas 10 para as 9.
00:32Eu falei, então tá, dá tempo de eu ir e voltar.
00:34Aí eu voltei, como sempre a gente ficou brincando, tomamos café juntos, eu, ele e meu filho.
00:42E ele assim, muito alegre, muito alegre.
00:46Aí de repente ele falou assim, já me deu a minha hora, se preparou para ir.
00:51Aí meu filho até comentou, ele falou assim, mãe, papai fez uma coisa que eu fiquei até surpreso.
00:54Desprezo, ele desceu, ele subiu de novo e bateu na janela do meu quarto e falou assim,
00:59tchau amiga, o papai te ama.
01:02Só que na hora assim, a gente não tem dimensão do que vai acontecer.
01:05Mas assim, olhando para trás, aquilo tudo foi uma despedida, entendeu?
01:10Aí ele passou num amigo, aí o amigo até presenteou ele com uma camisa,
01:14ele na mesma hora tirou a camisa dele e colocou todo alegre.
01:18E ele estava muito feliz.
01:20É isso que me consola.
01:25E aí Denise, você falou que ele já não estava mais nessa função de todos os dias estar fazendo salvamentos,
01:32de estar com um serviço mais interno?
01:33É, porque assim, hoje como ele era subtenente, ele já não trabalhava mais no caminhão,
01:39que era a paixão da vida dele.
01:41Ele trabalhava interno, mas ele gostava, amava trabalhar no caminhão.
01:45O negócio dele era ir para a rua, era apagar fogo, era resgatar pessoas, assim.
01:51Ele gostava dessa parte mais, assim, operacional.
01:55Então ele estava trabalhando na defesa civil, mas como eu tinha falado para você,
02:00naquele dia ele não estava escalado como chefe de operações,
02:04era uma outra pessoa dentro do bombeiro.
02:06Só que essa pessoa, até onde eu sei, ela precisava ir para uma reunião.
02:10E ela entrou em contato com ele quando ele estava a caminho de lá,
02:13dizendo da ocorrência e pedindo se ele poderia ir no lugar dele.
02:18Aí diz até o major para mim que na mesma hora ele falou assim,
02:20eu vou, mas se o major me liberar.
02:23E o major falou assim, não, cordeiro, se não tem nada para fazer, pode ir.
02:29Ele foi para essa operação, aonde que ele se equipou, foi descendo esse penhasco.
02:40Aí tinha as falas dele, quando ele viu o animal, quando ele resgatou o animal
02:47e a partir dali já não conseguiram mais nenhum contato com ele.
02:55Eu sempre tive muita confiança nele, talvez por ele me passe essa confiança.
03:00Então assim, eu não consigo entender o que aconteceu e isso às vezes me causa um certo desespero,
03:08porque eu confiava muito nele.
03:10Tanto que às vezes as pessoas até falam,
03:12Denise, você não fica preocupada de Marquinho, né, trabalhar em altura, trabalhar mergulhando.
03:17Eu não tinha, porque ele era uma pessoa que me passava essa confiança, essa segurança.
03:21Ele perder a vida dele trabalhando, isso nunca me causou assim, essa impressão.
03:26Eu nunca imaginei.
03:28Eu acho que ele nem viu, acho que foi tão rápido que aconteceu e ele não sentiu.
03:34Bom, eu acho, né, não sei se eu estou errada.
03:36Vamos ver o que o inquérito vai falar e é como me falaram.
03:41De repente a resposta que eles vão ter pode ser algo que não tenha acontecido.
03:47Somente Deus que vai poder falar, porque ali só estava ele, o animal e Deus.
03:51Ninguém mais sabe.
03:57Você também, assim, a forma como vocês ficaram sabendo, né, como que foi?
04:01O seu filho ficou sabendo primeiro?
04:03Foi, porque foi assim, a gente estava aqui nesse dia, minha mãe estava aqui comigo, então eu estava muito assim,
04:08acompanhando ela.
04:10Só que de repente, um certo horário na tarde, eu vi que meu filho veio, pegou o telefone e estava
04:15pra lá e pra cá, que nem de casa.
04:17E eu falei, é Gustavo, por que você está, né, andando com esse telefone pra lá e pra cá?
04:22Ele, não mãe, porque eu estou tentando falar com meu pai pra tirar uma dúvida com ele.
04:26Aí, tudo bem, passou, ele veio, guardou o telefone e depois de muito tempo, ele chegou pra mim com o
04:33celular dele e falou assim,
04:34Mãe, eu estou no grupo de surfista do bombeiro, que meu pai me colocou e aqui fala que meu pai
04:42sofreu um acidente.
04:43Eu falei, mas como é que seu pai sofreu um acidente?
04:45E aí, não veio nada de operação que ele tinha ido, né?
04:49Eu pensei até que fosse um acidente de carro, já que ele tinha saído pra pegar a viatura.
04:54Só que aí, quando eu liguei pro meu cunhado, infelizmente, ele já sabia, né, que Marquinhos tinha sofrido acidente
05:01e, infelizmente, ele não tinha aventado, né, ali mesmo ele tinha partido.
05:07Então, quando eu vi aquilo ali, né, recebi aquela notícia, eu, Gustavo e a Júlia, a gente entrou em desespero,
05:13porque a gente estava esperando ele chegar e naquele momento a gente ficou sabendo que ele não ia mais chegar.
05:22Ele até comentou com esse capitão que havia pedido ele pra ir no lugar dele, ele falou bem assim,
05:28lá em casa, minha família é tudo.
05:31A Denise é minha parceira, o Gustavo é meu amigão e a Júlia é muito parecida comigo.
05:41E no nosso último almoço no domingo, foi muito engraçado, sabe, Lária?
05:44Quando eu volto pra trás e remeto a lembrar aquilo que a gente viveu,
05:48eu falo ali, foi um momento de despedida que, num momento, eu não senti.
05:52A Júlia na mesa, fazendo as macaquices dela, ele olhando, rindo,
05:57mas quando eu olhei pra ele, eu olhei, mas eu não tive essa impressão.
06:00Hoje, quando eu volto e lembro, o olhar dele pra ela era um olhar de admiração.
06:05É como se fosse aquele último olhar, como se fosse uma despedida.
06:10Até uma amiga minha falou assim, de uma cena que ela falou assim,
06:12Denise, quando eu vi aquilo, me arrepiou, mas eu não tinha, né, assim, dimensão do que ia acontecer.
06:17E quando terminou o culto, ele foi e me deu um beijo.
06:20Uma coisa que ele nunca fazia dentro da igreja.
06:24Aí, quando nós chegamos em casa, sabe, a gente ficou juntinho,
06:27aí ele falou bem assim, tá vendo, Dê, só nós quatro basta, não precisa de mais ninguém.
06:33Então, assim, foi um final de semana maravilhoso, que nós quatro ficamos juntos.
06:41Ele não foi só um bom esposo, um bom pai, um bom filho, um bom amigo, não.
06:47Ele foi um bom profissional e ele deu a vida dele pela profissão dele.
06:52É uma coisa assim, ele cumpriu a missão dele naquele dia,
06:56porque ele foi para aquele penhasco para resgatar um animal, e ele resgatou.
07:02Ele perdeu a vida dele, mas ele cumpriu a missão dele, entendeu?
07:06Então, tipo assim, foi mais uma coisa muito bonita que ele fez.
07:11E isso não tem como a gente esquecer, não tem como uma pessoa dessa não ser homenageada.
07:15É como me falaram, né, uma amiga minha, que ela ficou muito triste de saber que ele perdeu a vida
07:22para resgatar um animal, e naquele mesmo dia, um vizinho dela colocou um veneno para tirar o animal dela.
07:29Ela falou que quando aconteceu aquilo, ela só lembrava do meu esposo.
07:32Porque ela falou assim, como pode na vida, né, um perde a vida para salvar e o outro está tirando
07:38a vida.
07:40Então, quer dizer, eu acho que ele é merecedor disso tudo e muito mais.
07:43Eu acho que tudo que a gente faz ainda, pelo que ele foi e pôr.
07:50A nossa história de amor não tem como esquecer.
07:53É algo que vai ficar para a minha vida inteira.
07:57É muito, vai precisar de muito tempo para pagar essas recordações, porque tudo lembra ele.
08:02Né? Tudo.
08:05Rapaz, esse vídeo ficou top, hein?
08:09Mano, tá tipo produção de Hollywood.
08:11Tem drone escambal, trilha sonora.
08:16Bicho, parabéns, hein?
08:17Tchau, tchau.
08:20Tchau, tchau.
08:21Tchau, tchau.
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