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Durante a Cúpula do Mercosul, realizada neste sábado (20) em Foz do Iguaçu, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva alertou que uma eventual intervenção armada dos Estados Unidos na Venezuela poderia provocar uma grave catástrofe humanitária. O presidente brasileiro criticou a presença militar de potências externas na América do Sul e defendeu o diálogo e soluções diplomáticas. Para falar sobre o assunto, a Jovem Pan entrevista o coronel da reserva Paulo Filho.

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Transcrição
00:00Bom, e sobre a queda de braço entre o presidente Lula, Javier Milley, a gente conversa agora com o Paulo Filho, coronado à reserva e mestre de ciências militares,
00:10para entendermos o contexto militar diante de tudo isso e o que está em jogo.
00:14Porque a gente vê, então, os navios ali dos Estados Unidos já presentes na costa, no Caribe e tudo mais, ao longo de toda a extensão territorial da Venezuela,
00:24impedindo os petroleiros de circular e também F-18, são os caças, as aeronaves que estão sobrevoando a Venezuela.
00:32Caso sejam realizadas ofensivas por parte dos Estados Unidos, de que forma também que o exército venezuelano pode tentar se defender?
00:41Bom dia.
00:43Bom dia, David. Bom dia, Paula. Bom dia a todos que nos ouvem, nos assistem.
00:47A concentração militar que os Estados Unidos impuseram à Venezuela, à América do Sul, ao norte da América do Sul,
00:55ela é inédita na história. Nunca houve uma concentração tão grande de tropas da maior potência militar da história aqui na América do Sul.
01:04Nós tivemos outros eventos na década de 80, década de 70, mas visavam especialmente os países da América Central e do Caribe.
01:15Tivemos a crise dos mísseis em 62, em Cuba, mas aqui na América do Sul isso nunca aconteceu.
01:22É uma disparidade, David, de forças muito grande.
01:26Você me pergunta o que o exército da Venezuela poderia fazer, a marinha venezuelana, o que poderiam fazer.
01:33Em face a um poder militar tão superior assim, arresta pouco aos venezuelanos.
01:40O governo Maduro determinou que a sua marinha escolte os navios petroleiros dentro da zona econômica exclusiva,
01:49ou seja, 200 milhas de mar a partir da costa venezuelana.
01:54Isso tem sido feito.
01:55Inclusive as notícias de que esse último navio que foi abordado pelos Estados Unidos ontem
02:01teria sido escoltado dentro da zona econômica exclusiva,
02:04mas a partir do momento que esses navios saem, eles saem por conta própria e em águas internacionais
02:11foi o momento em que esse navio e o anterior foram abordados.
02:15Além disso, nós já tivemos 27 ataques a pequenas lanchas,
02:20transportando, segundo os Estados Unidos, transportando narcotráfico,
02:24tanto no Caribe, costeiro à Venezuela, quanto também no Oceano Pacífico,
02:30saindo da Colômbia em direção aos Estados Unidos.
02:34Esses 27 barcos foram destruídos em ataques de mísseis,
02:37mais de 100 pessoas foram mortas nesses ataques americanos.
02:42O que as Forças Armadas Venezuelanas podem fazer em face a esse tremendo poder militar americano
02:50americano é tentar, de alguma forma, resistir a eventuais ataques pontuais,
02:57ataques de mísseis, podem instalar alguma artilharia antiaérea,
03:01podem fazer a proteção de pontos sensíveis.
03:04E eu não acredito que os Estados Unidos planejem uma invasão em larga escala,
03:09então eu não acredito que vai haver um enfrentamento direto entre as Forças Armadas Americanas
03:15e Forças Armadas Venezuelanas, mas as Forças Armadas desse país sul-americano
03:19não têm condições de resistir a um ataque militar americano.
03:22Que, repito, eu não acredito que vai acontecer em larga escala.
03:26Pois é, era sobre isso que eu queria falar com o senhor, viu, coronel?
03:29Se a Venezuela teria capacidade para aguentar uma possível guerra, né?
03:34Dado esse cenário dessas intervenções militares,
03:36o senhor vê uma escalada militar nesse conflito?
03:41É, o objetivo, Paula, dos Estados Unidos, segundo o presidente Trump,
03:47é impedir o narcotráfico, que ele identifica como saindo da Venezuela e também da Colômbia, né?
03:54Mas, além disso, nós temos que ver o interesse do petróleo.
03:57O presidente Trump, ao justificar essas abordagens e apreensão dos navios petroleiros
04:04que saem da Venezuela, ele justifica dizendo que a origem do petróleo seria americana, né?
04:13Os ativos seriam americanos.
04:15Isso é uma referência a uma nacionalização das empresas feitas ainda lá no governo Hugo Chaves
04:22em 2006, 2007, a partir desses anos.
04:25Então, há realmente, houve essas nacionalizações, muitas empresas não foram devidamente indenizadas, né?
04:34Por causa disso, então o presidente Trump coloca essa questão do petróleo também na equação.
04:40Então, há interesses geopolíticos, né?
04:43Envolvendo o petróleo e há esses interesses de segurança envolvendo o narcotráfico.
04:48O exército venezuelano, as forças armadas venezuelanas, embora tenham alguns equipamentos militares, né?
04:56Alguns sistemas de algum avanço tecnológico, de origem russa principalmente, mas também chinesa,
05:05esses equipamentos são muito aquém do poder militar americano
05:08e não têm condições de fazer uma defesa contra a maior força armada do mundo,
05:16que é a força armada americana, como eu já disse, né?
05:19Então, o que resta a eles é tentar fazer o que eles estão fazendo.
05:23Escoltas de navios, né?
05:25Posicionar a defesa antiaérea e fazer a proteção de determinadas posições muito restritas, né?
05:32De algumas bases militares, alvos do governo, alguma coisa nesse sentido.
05:38Bom, participa da nossa conversa também, Henrique Kriegner, nosso analista.
05:41Qual a próxima pergunta?
05:42Coronel, bom dia.
05:43A minha pergunta é sobre as possibilidades de intervenção dos Estados Unidos, né?
05:48Antes nós falávamos sobre uma presença militar ou mesmo uma invasão por completo, né?
05:55E aí até ocupação de parte do território, mas tem também a possibilidade de uma operação
06:01de busca e prisão do presidente Nicolás Maduro.
06:05Uma coisa que seria talvez uma operação mais simples e que não levaria a ocupação
06:11e nacionalização do petróleo.
06:14Na sua opinião, qual que é a mais viável e provável de acontecer nos próximos meses?
06:22Bem, como eu já disse, é a maior concentração militar em torno da América do Sul da história.
06:26É uma concentração militar, né?
06:28Com o porta-aviões Gerald Ford e seus navios Escolta.
06:32Tem um grupo de desembarque anfíbio Ivo Gima.
06:35É um poder militar em aeronaves, né?
06:37E cerca de 15 mil militares, muito grande.
06:40Mas esse poder militar, ele é insuficiente para um ataque,
06:44uma conquista do país, da Venezuela, né?
06:47Como nós vimos, por exemplo, no Iraque, no Afeganistão,
06:50por parte dos Estados Unidos no passado.
06:52Para fazer esse tipo de operação, seria necessária uma força ainda muito maior,
06:58muito superior.
06:59A Venezuela é um país muito grande, de uma geografia que facilita a defesa.
07:04Tem selva, tem montanha.
07:06Então, seria muito difícil uma ocupação militar norte-americana no território venezuelano.
07:13Seria muito custosa.
07:14Então, eu não acredito de maneira nenhuma que esse tipo de operação,
07:17uma invasão militar, vá ocorrer.
07:20O próprio presidente Trump já disse, reiterado às vezes,
07:23que ele veio para não fazer novas guerras, né?
07:25Ele precisava de uma promessa de campanha dele.
07:27Não fazer novas guerras.
07:28Então, qual seria a estratégia americana?
07:31Eu acredito que eles devem ter, devem estar apostando no desgaste do regime, né?
07:36Então, eles fazem esse bloqueio naval.
07:38Isso causa sérios transtornos econômicos.
07:40A situação econômica da Venezuela, que já é muito ruim, tende a piorar.
07:45Isso aumenta a insatisfação popular, que nós sabemos já é grande,
07:48contra o governo Maduro.
07:49Então, pode surgir alguma liderança, alguma defecção, alguma insurgência
07:54dentro das próprias Forças Armadas Venezuelanas.
07:57E aí, esse grupo insurgente poderia, sim, ser apoiado por ações pontuais americanas, né?
08:03Ataques cirúrgicos a determinadas bases ou palácios de governo, por exemplo.
08:11Alguma instalação militar mais relevante.
08:14Ou pequenas ações de Forças Especiais, como, por exemplo, foi aquela pra captura do Osama Bin Laden.
08:22Vocês se lembram lá no Paquistão, na época da caçada da guerra ao terror dos Estados Unidos.
08:27Então, o que eu acredito, né?
08:29Que deve estar sendo fomentada alguma defecção dentro das Forças Armadas,
08:33por uma mudança de regime na Venezuela.
08:36E essa defecção, né?
08:38Essa insurgência, ela seria, sim, apoiada por esse tremendo...
08:43Essa tremenda capacidade militar americana que está ali ao lado da Venezuela, né?
08:47Nós temos que lembrar que tem tropas americanas em ilhas a 15 quilômetros apenas do litoral venezuelano.
08:58Ou seja, muito rapidamente essas tropas podem chegar à Venezuela.
09:02Coronel, recentemente o presidente Lula disse o seguinte,
09:05que uma intervenção na Venezuela seria uma catástrofe humanitária.
09:11Eu queria a sua avaliação sobre o posicionamento, até agora, do presidente Lula
09:16e como que, ao seu ver, na sua experiência militar, como que um presidente deveria agir,
09:22presidente do Brasil deveria agir em relação ao seu posicionamento num caso como esse?
09:28Uma ação de qualquer força armada estrangeira na América do Sul realmente preocupa.
09:33Isso não tem aqui nenhum comentário de caráter ideológico.
09:37Se fosse os Estados Unidos, se fosse a Rússia, se fosse a China, se fosse o Reino Unido, a França, a Alemanha,
09:43qualquer potência internacional que tivesse com essa enorme força militar na América do Sul,
09:51eu acho que, como brasileiros, ficaria preocupado.
09:54Porque nós temos fronteiras com 10 países dos 12 países da América do Sul,
10:00então é muito importante que a gente tenha nossas fronteiras tranquilas,
10:06que não ocorram convulsões sociais, que não ocorram guerras do outro lado da fronteira.
10:12Se houver uma convulsão social na Venezuela, se houver, por exemplo, o que eu descrevi antes,
10:18uma tentativa de mudança do regime e isso redunde em uma guerra civil, por exemplo,
10:23certamente o fluxo migratório, que já é grande, relativamente grande,
10:28de venezuelanos para o Brasil, por nossa fronteira lá em Roraima,
10:32isso tende a aumentar drasticamente, com todo o peso social que isso significa para o estado de Roraima
10:39e para o próprio Brasil, que vai ter que acolher essas milhares de novos refugiados.
10:46Então, há sim uma preocupação, deve haver uma preocupação com a estabilidade das nossas fronteiras.
10:51Agora, em relação também à fronteira do Brasil, porque a gente viu nos últimos dias,
10:58aproveitando essa deixa que o senhor deu, a gente viu em Pacaraima, nas regiões de fronteira,
11:04uma grande vazão por parte do público venezuelano aqui no Brasil.
11:09Será que seria também a medida de imposição de barreiras mais concretas
11:14para uma espécie de controlar esse fluxo migratório?
11:18Já existe lá em Pacaraima, em Roraima, a Operação Acolhida.
11:25A Operação Acolhida é uma operação que o Exército Brasileiro participa com muita ênfase,
11:30mas é uma operação de várias agências brasileiras e, inclusive, agências internacionais
11:35tentando normalizar, normatizar esse fluxo de imigrantes.
11:41Então, essas pessoas são identificadas, recebem um primeiro atendimento médico, sanitário,
11:47e aí se existe uma estrutura de empresas no Brasil que podem receber essas pessoas como trabalhadoras
11:54para que a centrada no Brasil seja feita de uma forma ordenada,
12:00que atenda essas pessoas que são seres humanos, que perderam tudo ou estão perdendo tudo,
12:07fazem uma opção drástica de deixar tudo para trás
12:11para tentar ter uma qualidade de vida um pouco melhor em outro país,
12:15para que elas sejam recebidas de forma humanitária,
12:18mas sem que isso cause prejuízos para a nossa própria população.
12:22É uma situação muito difícil.
12:25Simplesmente fechar as fronteiras também é uma medida impossível,
12:30porque as fronteiras do Brasil são enormes, são gigantescas, são muito porosas.
12:34A fronteira entre a Venezuela e o Brasil lá em Roraima é uma fronteira seca,
12:39não tem rio em nenhum lugar, em lugar nenhum.
12:41Então, a entrada ilegal de imigrantes é muito fácil.
12:45Os Estados Unidos, que são a maior potência militar da história,
12:49não conseguem fechar a sua fronteira com o México,
12:53que dirá o Brasil com a fronteira com seus vizinhos.
12:55Então, é preocupante, sim, esse aumento de fluxo migratório,
12:58causa consequências sociais e isso deve nos lembrar que deve haver um esforço
13:05de financiamento, um esforço impessoal de todas as agências brasileiras,
13:11Polícia Federal, Ministério da Justiça, Ministério da Saúde,
13:16próprio Exército Brasileiro, Força Aérea e Marinha,
13:19em reforçar as fronteiras, especialmente a fronteira com a Venezuela nesse momento.
13:25Coronel, nosso comentarista Henrique Krigner também faz a sua pergunta.
13:28Coronel, eu também queria expandir essa análise para a questão da Colômbia.
13:34A Colômbia tem tido um relacionamento bastante conflituoso,
13:39o presidente colombiano tem tido um relacionamento bastante conflituoso
13:42com o presidente Donald Trump, se posicionando a favor da Venezuela,
13:47contrário às políticas americanas.
13:50E é um país ali que também tem uma presença de narcotraficantes,
13:56do crime organizado, muito expressiva.
13:59É a Colômbia que produz boa parte da droga que é escoada através do Brasil
14:03e de outros países também.
14:04A Colômbia, nesse sentido, poderia entrar em algum momento?
14:08Existe algum indício que levante essa suspeita de um apoio colombiano militar
14:14à questão venezuelana?
14:16Claro que não faria frente ao poderio bélico americano, mas desestabilizaria a região ou não?
14:24Sim, se isso acontecesse, desestabilizaria a região, concordo com você.
14:29Mas eu acho muito difícil que haja na prática esse apoio militar ostensivo, né?
14:34Tem envio de tropas colombianas para lutarem ao lado de tropas venezuelanas
14:39contra os Estados Unidos, isso eu acho muito difícil,
14:44acho uma hipótese muito remota.
14:46O que pode acontecer, sim, eu acho que é viável,
14:49é depois da Venezuela os Estados Unidos se concentrarem na Colômbia.
14:53Isso sim é possível.
14:54Isso estaria alinhado, perfeitamente alinhado,
14:57com o que o presidente Trump tem dito.
14:59Aliás, o presidente Trump já disse ao presidente Petro
15:02que ele deveria prestar atenção, porque ele seria o próximo, né?
15:05Justamente respondendo a essas diversas falas do presidente Petro
15:09a que você se referiu.
15:11Isso estaria alinhado com o próprio documento
15:13da nova Estratégia Nacional de Segurança Americana
15:16que confere uma enorme ênfase à América Latina,
15:20bota a América Latina em primeiro lugar
15:22dentre as preocupações estratégicas norte-americanas,
15:25a guerra ao narcotráfico, a guerra à imigração ilegal.
15:30E você também tem razão quando você diz que a Colômbia
15:33é a principal fonte de drogas, de cocaína, para os Estados Unidos.
15:38Aliás, faria muito mais sentido.
15:41A atenção americana está voltada para a Colômbia,
15:44que é a principal fonte de drogas, da cocaína,
15:47que chega aos Estados Unidos, do que a Venezuela.
15:49A Venezuela, na verdade, a droga que passa pela Venezuela
15:52e sai da Venezuela, estima-se que apenas 10% dessa droga
15:56sigam para os Estados Unidos.
15:5890% seguiriam para a Europa.
16:00Ou seja, a principal dor de cabeça do ponto de vista
16:04de narcotráfico, de cocaína, para os Estados Unidos
16:07não é a Venezuela, e sim a Colômbia.
16:10Então, eu não descarto que possa haver, sim,
16:12depois de resolvida essa questão venezuelana,
16:15uma atenção dos Estados Unidos em relação à Colômbia.
16:18Tem a questão do narcotráfico e tem a questão política.
16:21A Colômbia terá eleições ano que vem,
16:24e os Estados Unidos têm demonstrado,
16:25já têm feito isso repetidas vezes, né,
16:28que vão interferir com apoio a determinados candidatos,
16:32e certamente a oposição colombiana vai ser
16:34apoiada pelos Estados Unidos nas próximas eleições.
16:38Então, uma pressão contra a Colômbia
16:41é bastante provável, eu diria, no ano que vem, né?
16:45Tá certo, nós conversamos com o Coronel da Reserva
16:50e Mestre em Ciências Militares, Paulo Filho,
16:53a quem eu agradeço demais a presença aqui no Jornal da Manhã.
16:57Foi um prazer, muito obrigado.
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